Eram uns dias felizes.
Acordávamos pela manhã e sorriamos com a ideia de ir para a neve brincar. Saltávamos da cama quente para o frio, assim sem mais, destemidos.
Éramos crianças e tudo para nós era brincadeira. CaíAmos e levantávamo-nos de um salto.
As nossas mãos tiritavam de frio e os pais gritavam connosco e riamos, apenas riamos quando acertávamos com uma bola de neve em alguém.
E a avó arreliada corria atrás de nós com a vassoura e os nossos risos ouviam-se por todo o jardim.
A vida era simples. Para nós não existia tristeza apenas amor e alegria. Diversão...tudo era diversão.
Depois crescemos e ficamos assim: chatos, aborrecidos de mal com a vida, com o mundo de mal connosco.
Agora não rimos. Não há gargalhadas no jardim. Apenas silêncio. O único barulho que se ouve é o latir do cão e a chuva que cai das caleiras partidas.
Não há neve. Há as árvores do jardim e os pássaros. Não há o barulho da carrinha do pai a chegar, porque ele não chega, não vai chegar mais e a carrinha também não vai voltar mais.
Eu queria dizer que não há mais nada, mas sim há, há alguém que resiste firme como uma fortaleza. Nada a parece abalar, mas no entanto é tão frágil como uma flor-de-lis. Tanto amor dentro dela e como é linda! É o jardim da casa. A vida parte dela e sem ela nada existia.
As suas mãos ásperas como pedras de fortaleza que o tempo, a intempérie e as lutas moldaram.
A sua voz sempre enche de alegria o coração, essa voz melodiosa que embala num ritmo de encanto.
Ensinou-nos a ser mulheres. Ensinou-nos a ser gente e não gentinha. É senhora de um coração extraordinário e esse será o seu legado.
Se existe um ídolo é ela. É tudo que eu queria ser alguma vez.
Sem ela nada existe, existiu ou existirá para mim.
Aqui, longe de tudo, posso ouvir a sua voz, as canções que canta na cozinha, as lágrimas num momento de fraqueza e ali por entre os tachos e as panelas e as couves, posso ouvir a canção que vai cantando na sua voz de rouxinol.
E eu lentamente pé ante pé vou por trás dela e num momento de distracção faço lhe cócegas e ela grita e eu rio e fujo num pulo pela cozinha e ela ri agora. Ouço o seu riso...e chora a rir! Até isso ela me ensinou: a chorar a rir.
Cada dia acho que estou mais parecida com ela, mesmo depois de termos escolhido caminhos de vida completamente diferentes, sei que cada dia estou mais parecida com ela.
Agora que deixo a casa lá longe si to apenas saudade, a saudade de criança. Do riso, da música, do carinho das brincadeiras e sei que devíamos rir mais.
Somos uma família feliz e mesmo estando longe de quem mais amamos somos felizes, porque estamos sempre juntos no coração, no pensamento, estamos sempre juntos, porque ela nos ligou a todos a nossa querida Mãe.
"Aqui, deposta enfim a minha imagem,/ Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,/ No interior das coisas canto nua./ Aqui livre sou eu - eco da lua/ E dos jardins, os gestos recebidos/ E o tumulto dos gestos pressentidos,/ Aqui sou eu em tudo quanto amei." Sophia de Mello Breyner
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Deus escreve direito
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas no espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento
Inverno

Como gosto de dias assim. Gosto de sentir esse fresco cortante e seco.
Sente-se o cheiro a Inverno.
Casacos quentes. Uhm! mantas e pantufas fofinhas! Que delicia!
A lareia! As castanhas assadas!
Tudo deliciosamente temperado com esse frio de inverno!
Que bom que chegaste! Tinha tantas saudades!
Consigo sentir o teu toque nas minhas mãos frias, na minha face que dói quando a beijas com esse teu doce beijo frio. Meu inverno amado.
Tao doce e tão agreste. Um bem e um mal e cabenos manter esse equilibrio para te amar.
Grito da mulher ao marido monstro (diálogo final)

No dia do teu funeral encerrei o capítulo mais negro de 30 anos da minha vida.
Durante anos desejei a tua morte. Desejei alguma misericórdia do Todo Poderoso que tudo cria e tudo transforma. Mas descobri que apenas a nossa vontade consegue mudar a nossa vida.
Durante anos temi o momento em que entravas em casa.
Tremia só de pensar que abririas a porta. Pensava quanto tempo mais aguentaria aquilo, quanto tempo duraria até tu conseguires acabar com toda esta dor. Sonhava com o dia em que finalmente fazias o que todos os dias ameaçavas fazer quando berravas: eu mato-te!
Transformei o meu coração numa pedra desde o dia em que levei a primeira bofetada.
Não te reconheci. Não me reconheci. Morri. Morreste. Morremos. Mataste-me sim! Nunca percebeste que realmente eu já estava morta. Mataste o nosso amor naquele instante, naquele grito. Naquela fúria os nossos filhos mudaram o olhar, perderam o seu sorriso.
Ainda hoje, mesmo depois da tua morte, vejo o seu olhar triste. Ainda hoje consegui ver a dor.
Sabes o que é ver a dor?
Não, não podes saber, não podes saber o que nunca quiseste ver. Para ti a dor era apenas prazer. Era o prazer de ver alguém ser subjugado à tua vontade.
Para ti a tua família era como um objecto que se usa apenas para nosso bel-prazer.
Usavas os teus filhos como joguetes. Usavas-me como uma empregada, como uma puta, Tratavas-me como um nada.
E eu morri. Deixei de ser mulher e transformei-me naquilo que tu quiseste, num objecto.
Sempre que levantavas a mão para bateres os teus filhos o meu instinto de mãe, esse instinto que foi a única coisa que nunca perdi, atirava-me para a frente dessa mão. E tu batias sem parar e nem o sangue te fazia deter, nem os gritos de choro dos teus filhos te faziam acordar do transe em que parecias estar.
Um monstro! Fizeste despertar o monstro que escondias.
Sempre foste um medroso, fugias daqueles que eram mais fortes que tu, e batias naqueles que podias á calada.
Quando nos conhecemos eras tão amoroso comigo e conquistaste me com esse olhar de galã de cinema.
Ganharias o Óscar de melhor actor. Fingido!
Para ti os de fora eram sempre melhores. Os teus filhos eram vadios, eram malandros e eu era uma puta. Agarravas-me como se eu fosse uma mulher da rua. Nunca me deste prazer nem no primeiro dia em que fizemos amor. Nunca me deste um beijo com amor.
Acho que nunca soube o que era ser amada. Parecias um animal e eu era apenas uma vítima da tua fúria, do teu instinto na busca de prazer.
Calei-me. Só as marcas do corpo falavam e nunca deixei de te defender perante os outros. Tola!
A vergonha fazia-me aguentar tudo. Chorei tantas vezes. Quando os nossos filhos saíram de casa chorava noite e dia. A tua filha tantas vezes me disse para te deixar.
No dia em que o teu filho se virou contra ti acordaste. O meu coração caiu ali. O medo fez-me tremer as pernas como nunca tinha sentido, nem quando me batias desalmadamente. Pensei que se matassem, mas recuaste e ele ameaçou-te de morte. Medroso!
Nunca mais me tocaste, mas também nunca mais encaraste nenhum de nós. Não me dirigias a palavra. Desde aí começaste a definhar. Entregaste te aos vícios. Fumavas 2 maços de tabaco por dia. Nunca mais dormimos na mesma cama.
Nojo!
Sentia um nojo por ti, mas um medo. Trancava a porta do quarto com medo que me matasses de noite.
Um dia pegaste na caçadeira, colocaste dois cartuchos e disseste: um dia destes vão ver o que vos espera. Vão pagar! E riste com esse sorriso matreiro.
O meu coração tremeu.
Quando já não aguentava mais, decidi acabar com tudo, tomei todos compridos que tinha no armário e deitei-me na cama. Fechei a porta e adormeci.
Salvou-me o teu filho. Nem me foste ver ao hospital. Nunca pensei que fosses tão mau. No fundo ainda chava que sentias alguma coisa que não apenas essa indiferença.
Nunca mais voltei a casa.
Hoje estou aqui. Hoje voltei a esta casa e estou aqui para te dizer que devias ter morrido há mais tempo. Mas nunca mais quero voltar a este lugar. Ainda sinto o teu ódio impregnado nestas paredes.
Foste um demónio! Agora partiste para o inferno.
Nem depois de morto deixas de atormentar os meus pensamentos, fizeste-me tua prisioneira.
Com dor digo-te que nunca serei livre, nem no dia do teu funeral.
Eu queria fazer uma homenagem a todas as mulheres que sofrem de violência doméstica.
Já ouvi algumas histórias, mas ainda assim sinto uma dificuldade enorme de entrar na mente de alguém que sofre uma destas situações.
A coragem de nos libertarmos de uma destas situações é de louvar.
Coragem para todas essas mulheres, coragem para se libertarem deste sofrimento.
Mas queria explorar mais o tema de uma abordagem em duas frentes: vitima e agressor.
A tentativa de entrar na cabeça do agressor é impossivel para mim. Tenho de explorar mais esse lado negro. E deposi talvez conseguima algo melhor e diferente um dialogo a duas mãos e não tanto os monólogos que tanto gosto de fazer.
Nocturnos

Sinto uma vibração por todas as minhas células. Invade o meu corpo esta sensação estranha que me traz uma calma infinita...
Transporta-me para uma outra dimensão, para um outro local onde não existe espaço ou tempo e onde me sinto simplesmente a flutuar.
A música conduz os meus passos, conduz -me por um mundo onde existe uma vazio e uma luz. Aqui eu não existo, existe apenas a melodia e esta sensação de bem estar...
Talvez isto seja o céu. Talvez Chopin tenha encontrado uma forma de nos transportar num transe para a outra dimensão que pode ser o céu.
Este nocturno é das poucas coisas que me transmitem um prazer tal que me faz entrar num transe.
Se isto fosse uma técnica de hipnose resultaria perfeitamente comigo.
Que bom recordar Chopin.
Memórias
Lembras-me uma marcha de Lisboa
Num desfile singular,
Quem disse
Que há horas e momentos p'ra se amar
Lembras-me uma enchente de maré
Com uma calma matinal
Quem foi
quem disse
Que o mar dos olhos também sabe a sal
As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar
Queria viver tudo numa noite
sem perder a procurar
O tempo, ou o espaço
Que é indiferente p'ra poder sonhar
Quem foi que provocou vontades
e atiçou as tempestades
e amarrou o barco ao cais
Quem foi, que matou o desejo
E arrancou o lábio ao beijo
E amainou os vendavais
...
devagar
Luís Represas/João Gil
Lembrança de um passado que me faz sorrir.
Lembrar com carinho o passado, lembrar com carinho tudo.
Estes dias fizeram reflectir sobre a dor, a dor que sentimos quando perdemos alguém que amamos, alguém que é o nosso mundo e de quem dependemos até para respirar.
Redescobri que o tempo cura tudo. Talvez não seja uma cura, é uma questão de perspectiva.
À medida que nos afastamos de um momento de dor, vamos moldando a perspectiva da situação.
A dor passa a ser saudade e. no fim. tudo passa a ser amor, até os momentos de raiva ou de amargura com o outro. As lembranças que ficam são apenas amor. É maravilhoso como o tempo funciona como um filtro, retém apenas o que realmente importa: a alegria e o amor.
Isto é uma descoberta maravilhosa.
A sabedoria dos velhos é isto mesmo, com o tempo eles aprendem a dar valor ao essencial.
Sabedoria á o que peço todos os dias.
As coisas simples da vida
Agora que olho a chuva lá fora e oiço o vento rugir, sinto uma paz, como uma onde choque me trespassasse o corpo e deixa-se em todas as minhas células um bem estar que quase me deixa em transe.
sentir o prazer das pequenas coisas da vida. A vida é cheia de pequenos momentos que mudam o curso, as decisões, as atitudes, os sonhos, que simplesmente guiam o nosso inconsciente sem entendermos o que nos motiva.
A felicidade é assim, são pequenos momentos que nos fazem sentir bem, são momentos que nos fazem derramar uma lágrima de alegria, são momentos que nos deixam num transe inexplicável.
Por vezes não entendemos como podemos ser felizes, não percebemos o que nos deixará felizes e buscamos a felicidade em algo maior, buscamos num concretizar de sonhos e de metas que apenas nos levam a um beco sem saída.
Apostamos em ser felizes por força do ter e não do ser ou do sentir.
Por mim entendo que a felicidade é um estado de espírito interior. É algo tão egoísta e solitário como um instinto de sobrevivência. Só seremos felizes se soubermos ser felizes sozinhos, ou seja, se soubermos conviver connosco, com os nosso defeitos, com o que temo sde melhor e de pior.
Encontrar-me, buscar no que sou agora no meu presente, nas pequenas coisas do que sou e do que tenho a felicidade.
Cada gesto, cada olhar, cada toque, cada nota de música tem o seu encanto, tem a sua energia positiva, essa energia que tenho de conservar, para me tornar imune ao estado de melancolia que só me deixa essa dor, esse vazio.
Encher a minha vida de pequenas coisas positivas, que me fazem sorrir. Coisas parvas que me fazem sorrir, como uma flor, uma borboleta, um raio de sol por entre as nuvens, ou uma musica que me faz dançar.
Ter prazer num chá com sabor quente da canela ou com o cheiro forte do café ao acordar.
Chorar de felicidade num abraço a alguém que amamos.
Tudo isto é tornar a nossa vida repleta de felicidade com pequenas coisas. Sorrir, principalmente sorrir com tudo isto sem temer que o mundo nos ache loucos.
Agora só quero sorrir.
Quero apenas sentir o equilíbrio dentro de mim, esse equilíbrio que me leva á felicidade nas pequenas coisas do meu mundo.
Toada do engano

Oiço-te chegar lentamente. Passos vagarosos, respirar lento. Pousas com cuidado a chave e atiras o peso do teu corpo para a cadeira. Debruças-te e apoias a cabeça nas tuas mãos cansadas impregnadas com esse cheiro.
Ficas ali chorando baixinho para não te ouvir.
Choras ali a meu lado no silêncio da noite.
Eu, ali deitada sobre a cama fria, rezo para que ganhes coragem de te deitares a meu lado.
Queria abraçar-te, garantir-te um porto seguro, um perdão e um arrependimento que não te posso dar.
A minha fraqueza é a tua força.
Saber que estarás ali a meu lado e serás a minha cidadela, o meu escudo e a minha fortaleza.
Sinto um pulsar forte do coração que se aperta num desespero.
Tardas e eu tardo em esquecer.
Não virás...não vens e calmamente levantas-te e sais.
Não oiço bater a porta e sei que te deitas sobre o sofá.
A coragem de enfrentares os teus medos e as tuas fraquezas nunca foi o teu forte.
Deixas no ar o cheiro doce do perfume.
Ainda hoje o sinto, mesmo tanto tempo depois de partires ainda o sinto na cadeira onde sempre te sentavas e onde nunca ganhaste coragem para te deitares ao meu lado.
Não ouvias as minhas lágrimas, apenas sentias o minha dor nas palavras amargas que te deixava quando saía pela manhã.
A verdade sabia-me ao fel que ainda hoje sinto dentro de mim. E o engano era uma luz nas noites escuras que passei sozinha, deitada, esperando por ti, derramando lágrimas que nunca viste.
Só o teu olhar fugidio e o teu silêncio denunciavam a tua culpa, a minha culpa, a nossa culpa.
O teu toque, que antes era para mim fogo, era agora nojo e asco e sempre que me procuravas a minha pele morria como se de um ácido se tratasse, consumindo tudo à sua passagem. Consumiste o meu amor, e agora existe apenas ódio e dor.
Partiste numa madrugada fria, como todas essas em que chegavas com esse perfume caro de mulher.
Nunca te dei o que querias ou nunca nos demos um ao outro, ou o que tínhamos nunca nos bastou. Nunca percebi e nunca procurei perceber, porque agora tudo era apenas nojo para mim.
Deixámos de nos ver e deixei de querer cruzar-me com os caminhos que nos habituámos a percorrer de braço dado. Quis partir para longe, mas faltou a força que eras tu.
Se achei algum dia que soube o que era o amor, agora sei que era apenas uma nota de um acordeão desafinado que numa ilusão de menina ouvi como canção de embalar.
Um engano, foste um engano e eu fui uma porta sem saída por onde entraste e saíste sem saber o que de facto existia naquela divisão da tua vida.
Encerraste essa porta para sempre e eu...eu encerrei para sempre o meu coração.
Estranha Forma de Vida

Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.
Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.
Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.
Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes aonde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.
Cântico Negro - José Régio
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
Seguirei meus caminhos, e não me sigam os loucos. A minha loucura será solitária e meus passos serão únicos e iguais ao individuo comum. Serei no meio da multidão uma sombra, apenas mais uma sombra cinzenta, mas de um cinza com uns tons de purpura, que pintarei as minhas emoções.
De férias.
Vou apenas refugiar-me no trabalho e fugir de ti, de mim e das sombras que me perseguem.
Vou de férias de ti e de nós.
O melhor trabalhador é o que não tem vida própria. Ei-la aqui.
Vou para longe de ti que me absorves esta energia negra e quando regressar quero-te assim igual a mim, negro como a minha dor.
Adeus.
A justiça
Deus onde andas tu?
Clamo por ti e onde tás?
Que merda de vida...que merda de problemas!
Onde esta a justiça? Como é possível que ande eu a trabalhar para pagar dívidas de outras...como?
Eu não entendo como pode a lei ser tão injusta? Não é possível!
Como pode ser assim? Que raiva tenho de tudo isto.
Apetece-me apenas pegar na caçadeira e dar um tiro a esses ladrões.
E tu deus onde estás? Onde está essa justiça divina? Nem essa existe Deus?
Que sorte a minha!
Que sina tão grande! Não entendo essa sina, esta maldição de condição que apenas me persegue.
Anjos do céu venham e trazei a justiça porque aqui ela não existe. O justo paga pelo pecador. O criminoso sai impune e a pessoa séria é vilipendiada e tratada como uma criminosa, como um ladrão que é preso o injuriado.
Vinde justiça, porque se ela não vier terei de fazer justiça pelas próprias mãos.
Sobrevivência
Todos os dias a vida é uma questão de sobrevivência. Sobrevivência significa apenas adaptarmo-nos.
Quando nos levantamos de manha adaptamo-nos ao tempo que faz lá fora, vestimos uma camisola ou uma camisa mediante o frio ou o calor, porque se não o fizermos apanhamos um resfriado ou morremos de calor.
Quando mudamos de casa adaptamo-nos a uma nova casa, a novos vizinhos, a um novo bairro, e quando não nos adaptamos simplesmente mudamos de casa.
Quando mudamos de trabalho ou nos adaptamos ou resignamos o cargo ou somos despedidos.
Quando nos casamos ou nos adaptamos ao companheiro ou divorciamo-nos.
No fundo tudo gira em volta disso mesmo. Não adiantam princípios, sonhos ou desejos, tudo deve ser devidamente adaptado ás situações que nos rodeiam.
Acabamos sempre por nunca conseguir fazer o que sonhamos. E mesmo aqueles que o fazem, conseguiram-no à custa de saberem adaptar os meios para conseguirem realizar os seus sonhos.
A sobrevivência resume-se a isto desde à milhões de anos atrás.
Vamos levando cada dia com todas as surpresas que surgem e vamos respondendo com o nosso instinto de sobrevivência, e por aí podemos ser tudo o que quisermos.
ás vezes acho que tudo isto é apenas uma luta sem gloria. O que importa a sobrevivência? O que importa sobreviver mais um dia?
Somos ser racionais e para nós a vida não devia ser um caso de sobrevivência, deveria ser algo mais, deveria ser uma questão de alcançar algo mais, de buscar algo absolutamente extraordinário, mas gastamos as nossas energias na sobrevivência do dia a dia. Tornamo-nos escravos de um ideal social.
No final acabamos assim como uma aragem que passou, um pó, apenas um pó que se transforma em pó e que nada adiantou para si e par aos outros.
Somos apenas seres de uma natureza que tudo governa e de quem dependemos. A todo o momento poderemos deixar de conseguir sobreviver como seres e passaremos apenas a uma continuidade de matéria.
Adormecer
Estende-se pela cordilheira central e aninha-se num planalto beirão onde não vemos fim e onde eu não vejo o fim. O meu pensamento voa nas asas da águia que plana à minha frente, em busca de caça, buscando alimento para a sua cura. A cura do corpo na mente.
Resignei-me na minha busca e vagueio agora voando com a neblina pelos montes, descendo vales, galgando montanhas, trepando pinheiros, subindo penhascos e precipitando-me no abismo das alturas.
Sinto o pulsar da vida, em cada respirar sinto o ar fresco, um ânimo, um desânimo agora que olho a minha pele branca e velha, as coxas largas e desnudas...não posso voar, apenas pensamento pode voar por um mundo estranho.
Deslizo pela rochas e sento-me no tapete da sala debruçada sobre mim, vejo ao longe as casas graníticas inseridas na paisagem como se dela fossem naturais e os telhados cobertos de musgos, cobrem agora a minha pele nua e branca. Sobre a almofada de fetos deito a minha cabeça e sinto o cheiro da terra. Adormeço numa penumbra de sombras, de pessoas, de vontades e desejos...desejo dormir no eterno.
Crónicas: Hoje seríamos felizes
Lembro-me de ti com o teu olhar de menino. Lembro-me do nosso olhar de meninos. Por de trás da tua voz rouca de adolescente estava o teu olhar de menino.
Olhavas-me de canto e eu olhava-te por trás dos móveis, das portas e fugia sempre que me procuravas.
Nesse dia decidimos esquecer para sempre o nosso amor de criança.
Lembro-me que vinhas sempre tão bem arranjado, com as tuas calças bege e a tua camisa a condizer, e eu, com a minha roupa desajeitada, as minhas velhas calças com flores e a minha t-shirt azul, sempre tão pouca feminina e tão maria-rapaz.
Nesse dia ficaste na ponta da mesa e trocávamos palavras com olhar e com o silêncio que calava todos os comentários que se faziam sobre nós.
Fugia sempre que alguém se dirigia a mim. Inventava mil desculpas e escapulia-me pela porta dos fundos e ficava encostada à parede a ouvir as vozes do outro lado.
E foi ali nesse dia que escolhemos mudar o rumo das nossas vidas, escolhemos mudar o destino, escolhemos a infelicidade.
Foi nesse dia que te perdi, que me perdeste e que os nosso olhares nunca mais se cruzaram.
Hoje podíamos ser felizes.
Hoje os nosso filhos correriam pela casa e iriam enche-la de risos. Vejo-os correrem a abraçar as pernas do avô e vejo o seu olhar de alegria, um olhar que nos abraçaria com amor.
Ele gostava tanto de ti como a um filho. Teríamos sido felizes.
O meu mundo seria tão mais pequeno do que é hoje, mas sei que seria feliz ao teu lado. Sei que seria uma felicidade simples com as coisas simples da vida.
Sei que não teríamos perdido o nosso olhar inocente de meninos, o brilho dos nossos olhos, o brilho do amor.
Hoje não somos felizes.
Escolhemos um caminho que não era o nosso. Não nos escolhemos. Preferimos seguir o rumo do abismo, do medo e da incerteza.
Queria apenas voltar aquele momento em que ficaste ali a olhar para mim. Voltar ao momento em que por um segundo depois de todos partirem, ficámos ali no nosso silêncio e simplesmente abraçar-te, pedir que ficasses, garantir-te que seríamos felizes.
Meu amor, hoje sei que te perdi. Hoje sei que perdi tudo, que perdemos tudo, porque sei que também tu não és feliz.
Se o tempo voltasse atrás sei que hoje seríamos felizes.
Teríamos a nossa casa pequenina ao fundo do quintal dos teus pais, cheia de cor, de luz, de amor.
Eu esperar-te ia ao final do dias sentada na soleira da porta com o nosso mais novo nos braços, e o mais velho, a brincar no pátio, correria a abraçar-te quando te avistasse na curva da estrada.
Contarias à lareira as novidades do dia sentado no banco de madeira, que fizeste do carvalho velho da eira. Os teus filhos olhariam para ti com um ar de admiração. E eu beberia todas as tuas palavras, todos os teus gestos de amor que seriam para mim como fonte de vida.
À noite dormiríamos unos abraçados no nosso leito como membros de um corpo só, sempre juntos, incapazes de nos separamos, gomos de uma mesma laranja, faces do mesmo rosto.
Mas hoje sei que escolhemos outro caminho, um caminho que só nos trouxe dor. Quando tivemos tudo para ser felizes escolhemos apenas a dor.
Nunca mais os nosso olhares se cruzaram meu amor, mas sei que sofres. Sei que tal como eu procuras a felicidade. Sei que no dia que a encontrares também eu a encontrarei, nesse dia descansarei, nesse dia finalmente descansarei a minha busca.
Sei apenas que hoje seríamos felizes.
Esta é a única esperança que tenho, que hoje seríamos felizes.
Enjoos
Revolvem-se dentro de mim as entranhas numa vontade louca de vomitar.
E um grito louco em tom de pergunta: Meu Deus, Meu Deus! Porque me abandonaste!
Martela-me todo o dia este brado louco! E logo a dor que se revolve dentro de mim....e um enjoo, um aperto na barriga e encolho-me na dor e aperto com força como se quisesse espremer a agonia.
Um enjoo disto, isto que se chama vida e uma raiva que se pudesse me atiraria agora já por esta varanda para acabar com esta agonia.
Um enjoo da vida da puta da vida em que estou que não há droga que alivie este enjoo.
Negra condição! Mas que condição! E o silêncio que me alivia a dor não me tira o enjoo.
E esta cólica mais uma vez...Ai! Aaaaaaaaai!
Contorço-me de dores agora num soluço, num pranto, num choro sem lágrimas. Atiro-me para o chão e debruço-me sobre a agonia.
Rebentam-se me as entranhas numa dor que me morde a alma. Cão danado este! Vai daqui cão danado! Larga-me! Deixa-me no meu lamento! Deixa-me! Por favor deixa-me!...
Deito-me e no chão frio e duro da sala e choro baixinho...
Até quando?
Madrugada
A luz entra pela vida com uma timidez que encanta.
Ao longe, num azul gelo, as serras recortam o horizonte pintado em tons rosáceos.
As páginas do livro voltam-se com a brisa do vento matinal desviando a minha atenção do horizonte.
Os melros laboram na sua busca madrugadora por comida voando entre as árvores do jardim. E os pardais, num frenesim, refastelam-se com as peras deliciosas no quintal.
Começa mais um dia igual a todos os outros dias de verão.
Os ciclos da vida mantêm o seu rumo. Os dias nascem e morrem com exactidão, tal como nós seres humanos morremos e nascemos, mas com uma incerteza do que será o amanhã. Uma agonia...
O ciclo da vida.
Os dias correm num vagar de pregão serrano...num eco que vai e volta. Dooooor!
Os primeiros raios de sol despontam nas árvores do pinhal.
Os telhados despertam para as suas cores e o branco do casario brilha agora.
Na vila agitam-se as gentes num corrupio. Lenta dor agora...
Na aldeia os pregões das carpideiras: é vida! Cada um tem o que merece! Uns vão e outros ficam! A sorte e só para alguns! Cá se fazem cá se pagam!
Movo-me sobre o banco e ergo minha cabeça para um olhar indiscreto sobre o vizinho que desce vagarosamente a escada. Bom dia ti António!
Num repente um raio de sol bate no meu rosto obrigando me a um serrar de olhos. O sol! Bom dia meu amigo!
O pessegueiro, agora como que iluminado, reina no quintal entre todas as outras.
Encosto-me agora e rendo-me ao cansaço.
Agora que vistes durmo nos teus braços quentes.
Agora que me deste a luz posso sonhar com o paraíso.
Lá em baixo na vila começa a vida e eu adormeço para ela e procuro em ti a paz.
Retalhos de sentimentos com chuva
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!
Florbela Espanca
Para os que se preocupam ou fingem preocupar comigo, não temais senhores, porque a dor será a minha companheira, outra igual eu não sei encontrar.
E se no caminho me assaltar algum temor de a perder, logo encontrarei a tristeza que é luz do meu olhar.
Mansamente te aninhaste a meu lado e eu, absorta na minha solidão, nem dei por ti.
Os meus cabelos se cobriram de gotas minúsculas que se tornaram em lágrimas sem choro, apenas senti o cheiro doce da terra molhada. E tu, que chegaste lentamente para roubar meus pensamentos, quando me tocastes sentiste apenas o frio das rochas e achaste que eu tinha morrido. Lavaste meu rosto manchado pela dor e cobriste minha cabeça com um manto cristalino. E o céu chorou por mim sem eu ter partido.
Agora que sinto o frio nos ossos posso jurar que morri. As minhas pálpebras cerradas e as minhas mãos unidas contra o peito já não as sinto, apenas o oiço. Oiço essa maldição que persegue num bater incessante que não sai do meu peito...
Adormecer...adormecer para não mais o ouvir...
Quero não mais o ouvir!
Cansei ouvir esse bater...
Se cada dia é igual no vazio, porque persisto numa fé? Nessa fé de que o amanhã será igual.
Quando me perguntam se não há nada de novo, nem sei mais o que responder. Quando se dignam ouvir-me nem sei do que falar, porque nada mais tenho a dizer que os meus olhos não digam em lágrimas.
Só a chuva me entende no silêncio. Só a chuva me abraça e me consola as dores.
Gritos mudos e desesperados no silêncio da chuva...os meus gritos mudos por ti, e não vens levar-me para o Teu reino onde eu possa Te abraçar e finalmente adormecer nos Teus braços Senhor!
Teatro: a velha e o seu amor
Inventemos uma felicidade, um amor, uma tristeza ou até uma dor e se o poeta é um fingidor, então vamos fingir uma loucura.
Primeiro Acto
Na casa do cimo da aldeia, num dia tempestuoso a velha louca trauteia uma cantilena a um amor que ficou numa vida passada e o qual espera desde então:
Sentei-me na soleira da porta da casa e esperei por ti.
Perdi a noção ao tempo em estou aqui.
Nas paredes que me recordo com sua pedra nova e limpa, vejo agora o negro.
Os musgos cresceram no colmo do telhado, por onde as pingas da chuva entram confundindo-se com as minhas lágrimas.
Dentro o pó tomou conta dos móveis, tomou conta do coração perro e enferrujado pela dor.
Meus olhos fixaram-se no horizonte e aí procuro distinguir a tua silhueta, mas não vejo...
Por vezes no meio da loucura olho a miragem de ti, mas não és...
Passas com as caravanas dos saltimbancos que subiram à aldeia para entreter o povo, mas não ficas...
Aqui meu corpo imóvel e inerte não vive desde o dia em que partiste, porque nunca exististe...
Juraste teu amor eterno e eternamente aqui estou, porque nunca vieste...
Desde o momento em que abri meus olhos para esta vida espero por ti, porque nunca te tive meu amor?
Fim de cena
A velha morta na soleira da porta e o povo passando na rua sem reparar que ela há muito que se deixou de ouvir.
Ao longe no horizonte distingue-se a silhueta de um homem.
Fim do Primeiro Acto
Depois de uma conversa com um amigo
Futuro promissor. Dormir até tarde, fazer alguns dos deveres com clama e descontracção.
Meio da tarde tomar café com um amigo...ir ás compras...jantar e eis que de súbito um telefonema, outro amigo a convidar para tomar café.
Dia normal até aqui.
Estamos a falar de um amigo que diz, e reconheço que sim, foi dos que mais me empurrou para eu mudar a minha forma cega de me ver no mundo.
Já não o via há algum tempo e achei que seria bom conversarmos um pouco, saber com ele ia, o que tinha feito. Engano total. Afinal era só para falar do mesmo de sempre: de mim...que aborrecimento.
Conversas sérias em tempo de férias é terrível. Pior que isso é não chegarmos a conclusão nenhuma, porque tal como ele diz os meus argumentos são sempre os mesmos.
Mas agora, aqui neste cantinho virtual que ninguém lê eu vou-te dizer aquilo que não consegui dizer-te na hora, nem a ti nem a ninguém.
Ao contrário do que tu dizes tu não me mostrastes o sol e eu na minha cegueira não o vi. Não. Tu mostraste-me o sol por detrás de uma nuvem e eu que imaginasse o resto. Mas de facto há uma coisa que tens razão, nada mais podias fazer por mim. Nada mais podias fazer.
Tu queres saber o que é de facto o meu problema, porque é que eu não consigo sair do quarto escuro? De facto tu não me poderias ajudar nunca, nem tu nem nenhum dos meus incansáveis amigos.
Sabes porque é que eu fico tão segura no escuro da minha solidão? Nunca ninguém me mostrou que eu poderia sair dessa solidão apenas com algo mágico como o amor. Tu não percebes isso, nem tu nem ninguém percebe isso, nenhum de vós os comuns mortais que já amaram e já foram amados. E eu na minha solidão não amei nem fui amada. Nunca ninguém me disse: meu amor.
Queres melhor antídoto para a minha insanidade do que isto? Sabes o que é passar na rua e ver a felicidade no rosto dos outros e perceber que de facto a única coisa que nos falta para sermos realmente felizes é isso? Será tão difícil perceber isso? Tu próprio não te sentes em baixo quando estás sozinho? Que mais podes fazer por mim? Que mais posso fazer eu por mim? Inventar um amor? Colocar um anúncio no jornal: Rapariga solteira e com beleza interior de sobra, procura amor sério e para compromisso futuro. Parece-te bem?
Tenho muitos amigos e todos gostam de mim, a minha família gosta de mim, as pessoas que trabalham comigo gostam de mim e sempre gostaram do meu trabalho, mas porra! Nunca me aconteceu algum filho da mãe me dizer: meu amor. E meu caro eu sei que nenhum prazer físico do mundo me irá satisfazer uma necessidade infinita de sentir amor! O prazer físico nunca irá fazer superar o prazer de ouvir dizer: meu amor.
Parece uma loucura, mas é verdade. O que me falta para ser feliz, para ter a MOTIVAÇÃO de mudar a minha vida, de ser o que realmente quero ser é amor... Simples não é?
Como posso eu chegar ao espelho e achar que estou bonita, se quando eu virar costas ninguém me disser isso. Não é no espelho que eu quero ver a beleza ou o amor, é, tal como tu escrevias e muito bem, nos olhos de alguém.
Tonto...não sabes onde falhaste! Ficas desapontado, porque falhastes como amigo! Não meu caro senhor, você fez o que podia e mais não lhe era pedido, espero é que não o tenha feito por frete e se o fez, lhe peço desculpa. Mas não se ire por mim, nem por si.
Você não me poderia dar algo que eu ainda tenho esperança de algum dia poder encontrar: o amor nos olhos de alguém. Isso é a minha única luz ao fundo do túnel, será a minha razão final para realmente eu apreciar a vida, será a minha razão de viver! Saber que terei sentido o amor completo na sua plenitude será o motor para eu renascer da morte da alma.
Ter realmente aquilo que tal como dizes eu mereço, que no fundo todos merecemos, ter sentido tudo o que poderia sentir, além da tristeza que todos os dias me acompanha, é que me fará mover.
E sabes, com a idade desaprendemos a sentir e o medo que me atormenta é ter deixado passar o tempo de realmente sentir, de saber sentir, de saber mostrar o que sinto, o medo de me ter tornado apenas uma rocha impermeável ao amor.
Sabes, depois disto nada mais me resta dizer. Nada mais me resta mostrar. Aqui está a minha alma nua. E todos aqueles que lerem isto conhecerão aquilo que eu tão insistentemente persisto em esconder, a tristeza é esta, por isso eu me odeio tanto e mais nada...
Depois disto poderei simplesmente morrer, porque tudo sobre mim está dito, escrito, conhecido vivido, sentido...
Está é a minha auto biografia final, o meu legado, o meu testemunho, a minha herança é esta: viver sem amor é apenas ser um morto vivo... E quem nunca sentiu o amor nunca viveu de facto.
E vós comuns mortais como eu o que tendes a dizer a esta verdade? Dói não é?
A vida como ela é
Das pessoas que conheci ao longo da minha vida todas me surpreenderam com as suas atitudes, mas raros foram aqueles que o fizeram de forma positiva. Esses raros seres humanos foram alguns dos amigos que ainda mantenho. Não é justo que conte aqui com a família, porque tal como diz o outro "Podemos escolher os amigos, mas não podemos escolher a família".
Nunca fui de cultivar inimigos, mas também nunca fui de ter muitos amigos.
Posso dizer que ao longo do tempo fui cultivando algumas boas amizades, pessoas que foram ficando, que me deixaram ficar, que me convidaram e convidam a entrar nas suas vidas. Nada mais aprazível do que sermos convidados para a vida de alguém.
Eu tenho a mania de necessidade de reconhecimento público, tenho a mania de ser egocêntrica, no fundo de ter que ter a atenção de todos. Talvez seja apenas um trauma de infância, ou para quem acredita em reencarnação, um trauma de uma vida passada.
Fico magoada quando algum amigo me decepciona, mas sou capaz de esquecer e seguir em frente. Apesar do meu orgulho, da minha teimosia, sou até capaz de dar uma centena de oportunidades a essa pessoa ou até de reconhecer que talvez eu não estivesse num dia bom, que talvez fosse apenas um mal entendido.
Não guardo rancores e procuro sempre esquecer os maus momentos, mas quando estou num dia mau posso ser muito má e injusta, simplesmente cortar a direito e dizer ou fazer o que vier à cabeça.
Nos últimos tempos afastei-me das pessoas apenas e só para não as consumir com o meu mau humor, mas agora que estou a atentar recuperar os laços e a tentar mudar de humores para ver o mundo com uma nova perspectiva, reconheço que fui cega a muita coisa, que fui um anjinho e perdoei certas atitudes que talvez não devesse permitir. Num período de mudança estamos sempre mais susceptíveis, e por incrível que pareça, ficamos mais permeáveis e coisas grandes e menos tolerantes a coisas pequenas, aquilo que vulgarmente chamamos tempestades num copo de água.
No período de mudança que estou a atravessar acho que me deixei vencer por essa susceptibilidade e deixei que algumas pessoas me induzissem no erro, tomassem vantagem e me iludissem com o ouro dos tolos.
Talvez deva começar a abrir os olhos, a não admitir algumas coisas e a ser mais firme em outras. Talvez nem todos devam ter tantas oportunidades como as que tiveram. Talvez eu deva ser menos anjinho e perceber que existem pessoas que só se querem aproveitar da minha ingenuidade e da minha bondade, levando-me a seguir um caminho que é bom apenas para eles e sem contrapartidas para mim, fazendo-me impor regras que eu nunca seguiria, e obrigando-me a ter atitudes que nunca teria.
Ao longo da minha vida aprendi a não ser calculista, a não fazer da vida um jogo de xadrez onde dispomos as peças ao nosso bel-prazer para atingir um objectivo defino. Como as pessoas conseguem ser tão sacanas ao ponto de passar por cima dos outros, dos seus sentimentos e dos seus sonhos? Como é possível que o ser humano um ser social e racional, consiga tomar atitudes que em muito se assemelham aos animais, onde o único instinto é o da sobrevivência? E não me digam que a desculpa é a de que o mundo é uma selva! O mundo era uma selva até o homem se tornar num ser racional que pensa, cria e transforma. Mas o homem não tem capacidade para criar com exactidão com perfeição, com equilíbrio. Enquanto não deixarmos de ser tão egoístas, de ser tão básicos, tão materialistas, tão agarrados a prazeres terrenos que nada têm a ver com a inteligência, não deixaremos de ser animais.
Mesmo pessoas que se consideram inteligentes, valorizam coisas tão terrenas que permitam-me que as considere apenas bestas. Prefiro ser desprovida de pouca cultura, ser simples, ser um pastor que olha para as montanhas e valoriza todos os dias a sua beleza, porque sabe que o seu sustento está a ali e que se não as proteger não terá o seu futuro e o dos seus filhos garantido. Preferia ser pobre, mas ser feliz, ter amor, ter paz e harmonia. Preferia viver no meio das rochas que oram todos os dias e serenamente cumprem o seu papel sem se lamuriar ou irar contra a sua natureza. Isto é apenas uma questão de sabedoria.
A inteligência nada tem a ver sabedoria. O homem não caminha para a simplicidade da sabedoria para poder chegar à felicidade, apenas caminha por um caminho tortuoso como a inteligência para chegar à desumanidade.
Começo a ficar cansada destes jogos. Nunca gostei de jogar e como nem as regras deste jogo sem lei sei, prefiro mesmo não entrar nele, mas todos os dias a vida me vai atirando com lama para a cara. A vida no fundo é assim é um jogo.
Perdemos e ganhamos e por vezes perdemos pessoas que estimamos, apenas só porque não queremos entrar no jogo onde sabemos que vamos perder-nos.
Uma nova perspectiva ou apenas uma brisa de razão para a minha pobre mente desprovida de inteligência para alguns e tão nobre para outros? Num desejo apenas peço:
Que a razão esteja do lado dos fracos e dos loucos que se deixam levar por mentes onde não reina a inteligência, mas apenas a maldade e a esperteza dos ímpios.
Que a sabedoria finalmente se atravesse no meu caminho para eu deixar de tomar as decisões que me deixam mais longe do meu caminho para a felicidade.
Que o coração não se deixe guiar pelo vício da maldade e do ódio.
Afasta-me daqueles que me deixam ficar apenas cicatrizes na alma e no coração, porque me fazem passar por louca, por tola ou imbecil, por uma coitadinha desprovida de razão e capacidade de decisão.
E quando a minha cabeça cansada quiser tombar perante a vergonha ou a humilhação, que se levante na certeza de que neste jogo que é a vida, eu não serei perdedora desta guerra.
As tuas minhas poesias
Tenho tanto sentimento
Que e' frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheco, ao medir-me,
Que tudo isso e' pensamento,
Que nao senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
- Fernando Pessoa
Escrevo aquilo que me passa pela mente com sofreguidão de criança que conta uma novidade.
Mas quando dou por mim e ler Pessoa, vejo que tudo o que disse está escrito.
Não sei que sintonia louca é esta que nos une, apenas sei que nada mais possa dizer que tu já não tenhas emoldurado num poema qualquer com sofreguidão de loucura.
A novidade que me trazes ao ler um novo poema, é apenas uma lembrança do um passado que não sei em que tempo situar. Ficou a lembrança e o sentimento e mais nada posso saber.
Loucura de escrever, de inventar uma vida colorida de cinzentos. Se fosse um desenho seria uma pintura em tinta-da-china, onde apenas se percebe uma folha caída sobe as águas do lago.
Insisto na tua loucura, na minha loucura, criando apenas uma vida paralela a outra onde me perco por caminhos que não quero, onde insisto em pesadelos que não os meus.
Desisti de lutar pelos meus sonhos, por mim, por aquilo que realmente desejo e sou e por aquilo que o destino traçou para mim.
Desvio-me do destino com precisão surpreendente e transformo as oportunidades em muros e não em portas que se abrem para o horizonte. Teimo numa fuga pelo deserto e fujo de um oásis quando o vejo.
Quero voltar a ser eu, a ser o que desejo e não apenas um espectro de alguém que nunca fui.
Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Anjo caído!
A idade vai ensinando a dar valor ao amor.
Há medida que vamos envelhecendo vamos aprendendo a dar valor ás pessoas que amamos, aqueles que nos despertam bons sentimentos, que nos fazem sentir felizes. Mas a idade tem um senão, com ela perdemos a capacidade de mostrar e de dizer que amamos. Uma criança não se inibe de dizer que gosta de alguém, mas um adulto tem dificuldade em dizer amor.
Neste fim-de-semana despedi-me pela vigésima sexta vez da minha família. Achava que com o tempo podia ser mais fácil as despedidas, mas cada vez mais me convenço que de facto não é mais fácil, mas sim cada vez mais difícil. As crianças crescem, os gostos mudam, os hábitos mudam, mas o amor parece fortalecer-se.
Neste verão apesar de passarmos pouco tempo juntos, todos os momentos foram intensos e a vontade de aproveitar todo o tempo era enorme. Isto deu asas a que tivéssemos conversas mais profundas e que no fundo nos pudéssemos conhecer melhor. Apesar de eu nunca ter procurado fugir tanto a conversas, de nunca ter desconversado tanto e de ter fugido a teorias e a sermões, a minha família conseguiu pregar-me mais sermões por hora e meter quadrado do que o normal e com isso ficar a conhecer-me melhor.
A minha mana casou nova e tal como a minha mãe casou aos 19. O único homem que conheceu foi o meu cunhado e tem por isso uma visão um pouco básica das coisas.
Para ela alguém solteiro aos 25 anos é de desconfiar.
Com os meus 26 anos quase 27, a minha irmã acha estranho nunca me ter conhecido nenhum namorado. Por isso é normal que este ano lá tenha ganho coragem para pregar a mim e à minha mãe um discurso sobre a necessidade de eu me casar.
Nos outros anos eu achava que me podia safar dizendo que era nova para pensar nisso e que tinha que resolver a minha vida profissional, mas este ano decidi contar a verdade.
Não, eu não vou sair do armário! Comecei logo por garantir que não era lésbica para eles ficarem descansados, depois adiantei caminho contando que isso só tinha a ver com o facto de eu não corresponder aos padrões de beleza actuais e como tal não poder se quer pensar que alguma vez poderia equacionar ter uma vida normal como casar ou ter filhos. Resposta: vai aparecer alguém que aprecie outro tipo de beleza, a interior!
Porra! A isto digo Porra! Eu nem vou comentar, porque aquilo que eles dizem não faz nem sentido.
No outro dia vi uma reportagem sobre pessoas que sofriam de obesidade, e não digo que seja o meu maior problema, e elas diziam que de facto o problema não era arranjar quem estivesse interessado, o problema era arranjar alguém que quisesse assumir um compromisso. Tal como diz um conhecido, as mulheres são todas iguais, por isso ir quando a necessidade aperta vamos para a cama com qualquer uma. Infelizmente eu já sofri isto na pele.
Ora as pessoas normais, não percebem isto, não entendem que pode ser muito difícil que de facto alguém posso ter vergonha de nos apresentar aos amigos ou à família.
Na minha família eles são todos muito normais, bonitos e com as suas belas formas e eu sou assim completamente fora do normal. Feia como a noite e gorda como uma baleia, nome que diga-se de passagem ja tantas vezes me chamaram. Sempre fui descriminada até dentro da família. E porra! nunca ninguém sequer se dignou levar-me a um médico para resolver o problema limitaram se a criticar uma criança como se eu tivesse culpa que o meu metabolismo funcionasse assim.
Quantas vezes na escola os miúdos me insultaram e me bateram! As pessoas não têm noção de como as crianças podem ser más entre elas e, um anjo como eu, teria de sofrer, porque este inferno que é o mundo não é para anjos com beleza interior.
Beleza interior devem ter as freiras. É um insulto alguém me dizer que eu tenho beleza interior. Porra! Eu não quero ter beleza interior. Eu queria ser uma comum mortal com beleza normal e não ter beleza interior. Claro que ninguém pode fazer nada. Nem um milhão de plásticas me davam alguma beleza, mas porra! esqueçam que eu existo, façam de contas que eu sou freira e não me insultem dizendo que eu tenho beleza interior e que posso encontrar alguém que aprecie beleza interior! Poupem-me a estas conversas e ignorem-me.
Quero lá saber que a maioria das miúdas da minha idade se tenham casado e que todas as minhas amigas estejam no caminho de o fazer! Deixem-me em paz e sossego e não me venham com essa conversa que só me martiriza mais do que eu já faço todos os dias.
Sejamos realistas, eu sou apenas a gaja que serve para resolver uns problemas de vez em quando! Ou a gaja que serve pode ser amante de um homem mais velho 20 anos. Poupem-me com esses discursos moralistas e pouco realistas de beleza interior! Já agora, não me obriguem a mudar de grupo de amigos só porque todos eles são comprometidos, porque isso eu não vou fazer. Eu não vou mudar de amigos porque eles se casam e tem filhos, ou netos ou o que quer que seja. Para mim os amigos não são uma necessidade social são uma necessidade de felicidade de cumplicidade e não apenas de conveniência.
Que irritação, estou com eles tão pouco tempo e quando estou com eles tenho que levar com estes disparates. Ora só me falava mais esta hem!
O medo
É assim que me sinto, é assim que vou sentindo meus dias, a vida num vai e vem de tristeza e desespero...uma loucura sana ou insana que me embala como a melodia que me persegue.
O medo mora comigo, e mesmo que eu queira adormecer para a vida ele estará la presente como insónia que não me deixará dormi na paz...Ai essa paz! Essa paz que tanto procuro e que cada vez mais se afasta de mim.
Cada dia uma inquietação, uma desilusão, uma lágrima, um beco, um fim que é só o inico de uma dor, a dor que me adormenta o coração e me sossega a alma.
O medo mora comigo e dorme no mesmo catre que eu, nesse chão duro onde sossego o corpo.
Cada sobressalto é o medo, o medo de ver chegar a madrugada e com ela mais um dia de tormento no vazio.
Vem Medo! Vem! Vem deitar-te a meu lado! Amanhã é mais uma noite na escuridão do dia.
Quem dorme à noite comigo
Deixem falar o poeta maior
PRECE
Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
[...]
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.
Fernando Pessoa em "O Eu Profundo".
Em tudo o que diga, ele antecede os meus passos, ele adianta-se na palavra e disse ja tudo o que posso querer dizer, tudo o que possa pensar.
É como as nossas mentes fossem uma só, mas isso era querer ser maior, querer ser mais alto, e não sou assim, não posso comparar-me a tao grande mente.
Pergunto: será que ele também passou estas penas na vida para escrever assim?
E depois da prece que niguém ouviu...
Bati em tantas portas!
Ninguém me ouviu, ninguém me atendeu.
Não ouviram as minhas preces, a minha dor que gritou alto como as lágrimas que molharam meu rosto e que ninguém viu.
Ninguém quis saber porquê...eu calei a dor...corri meia cidade e ouvi um fado lento. A ninguém consegui explicar o que sinto. A ninguém pude dizer o que de facto passou pela minha cabeça e como é que um dia que podia ser calmo, se tornou num pesadelo.
Não valho a pena...nunca vali a pena para alguém se atravessar por mim, para alguém se arriscar por mim. Por mim ninguém morreria...sou um resto de bolor que ficou numa côdea de pão velho e que ninguém quis.
Subi o elevador e entrei na casa confusa que espelha o minha vida. No meio do caos fui encontrar-te ali serena. Toquei-te e num arrepio senti o teu metal percorrer as minhas veias como uma droga. De súbito uma paz! É bom saber que temos ali tão perto a solução para tudo.
Só tu me esperas. Só tu não me abandonas, só tu sabes como me fazer encontrar a paz. Acaricio lentamente as tuas formas e sinto o teu cheiro metálico. Sabes que não é hora de me possuíres agora, mas sabes que numa dessas noites em que repousas a meu lado eu irei de mansinho deixar que me possuas com todo o teu poder e me leves até ao infinito, até ao paraíso, onde a dor será apenas prazer, o prazer de encontrar a vida eterna, o juízo final.
Dorme por agora. Deixa apenas acariciar-te e sentir a paz que só tu me sabes dar.
Eu também irei dormir, talvez as drogas que me acalmam me tragam um sonho…o sonho de que amanha terei mais um pesadelo pela frente, o pesadelo da realidade do que sou, do que serei e daquilo que de facto nunca terei. O pesadelo daquilo que sonho, mas que se esfuma quando logo julgo alcançar. No fundo toda a minha vida é uma ilusão. Até achar que me podes possuir é uma ilusão, nunca terei coragem de premir o gatilho para que se desperdice uma bala com uma miserável como eu. Não vale a pena. Não valho a pena. Não vale mais a pena lutar por mim…Deixar-me desfalecer e talvez me esfume no ar como os meus desejos.
Prece
Refugiei-me no silêncio e afastei-me de todos aqueles que sempre criticaram as minhas opções, mas também daqueles que se preocuparam comigo. Refugiei-me na dor e daqui não quero sair. Por vezes no meio da escuridão existem espectros como o amor da família, que me dão um ânimo para continuar. Mas mesmo depois do fôlego de amor que eles me dão, a dor continua...Há muito que começou a ser dor física. Já não é apenas a tristeza da alma, o corpo também dói. Os pesadelos, as perseguições que temo, são apenas as premonições das dores que todos os dias me surgem.
Nada do que faça tem desfecho feliz, nada daquilo que escolha para mim é boa opção. Todas as decisões, ponderadas ou impulsivas são erradas, levam apenas a uma dor, a uma tristeza.
Parece uma maldição...fui amaldiçoada no dia em que nasci. Uma daquelas maldições de contos de fadas que me persegue e cujo feitiço não tem forma de retroceder...A minha sombra transporta o mal e só em noites sem luar posso descansar. No escuro, onde a sombra não vem, posso descansar a maldição...
Os olhos transformaram-se em fontes de onde não param as lágrimas...agora em lugar algum elas param...no trabalho, no carro, em casa, na rua, na igreja, em todo o lado...saltam assim sem serem convidadas...Nem o verão consegue secar esta fonte. Sinto o sal nos meus lábios como um alimento, o único alimento que consigo digerir.
Definho lentamente, e tudo me afecta, e a tudo fico sensível. Perseguem-me doenças, perseguem-me negras escolhas.
Quando alguém me dizia que tinha de lutar pelos meus sonhos eu ainda acreditava, mas agora eu digo: Oh insensatos senhores! Que me adianta lutar contra um tormento que não posso vencer, um tormento onde não há lugar a sonhos, ha apenas dor e nada...o vazio a tempestade, a neblina.
Atirar-me deste penhasco onde estou...deixar-me cair, simplesmente deixar-me cair...voar para o fim de uma vez, o fim da tormenta. Se é para viver no vazio, como me dizia um amigo, então mais vale morrer, morrer de uma vez. Vem coragem! vem coragem para encontrar a morte, para a procurar com todas as minhas forças e a abraçar sem demora. Vem! Não encontro mais razões para viver, não encontro mais nada que me leva a viver.
Tudo o que desejo se transforma em pó sempre que lhe toco. A maldição persegue-me! tudo se transforma em vazio, em nada!
E quem me pode salvar? Oh Deus te suplico envia-me a Morte, essa senhora negra que o destino teima em afastar de mim.
Oh! Senhora minha Morte, vem e leva este corpo , porque a alma essa já partiu.
Rogo-te Senhor, salva-me desta aflição que sou eu, porque eu não mais me posso salvar.
meu corpo desfaz-se em pedaços...e a dor é já uma droga que se tornou em prazer.
Queria amanhã não acordar. Te peço Senhor leva-me para ti Senhor. Leva-me!
No fim de semana em família.
É sempre a mesma coisa, o mesmo tema...mas depois descubro que é a única forma de transformar as lágrimas em letras. A única forma que encontro de parar de sangrar é escrevendo, é a minha dose diária de droga para me manter inconsciente.
No outro dia alguém dizia para não escrever estas coisas...eram muito más e eu argumentava que era o que sentia...
Não adianta tomar a m...dos calmantes...não adianta nada. O facto de ficar mais ou menos sonolenta não me tira a dor.
Este fim-de-semana troquei a dose de comprimidos por uma dose extra de amor. O amor incondicional de uma criança que nos oferece todo o seu amor em troca de nada. Fico sensibilizada...uma criança dá-nos carinho e a única coisa que espera de nós é a nossa presença, a nossa atenção, espera apenas que estejamos ali para ela.
Estive ali para ela...dei-lhe atenção e ela deu-me carinho...deu-me um sorriso...deu-me um abraço, muitos abraços, andámos de mão dada, falámos de coisas sérias e de outras banais, e ela com apenas os seus 13 anos transmitiu-me tanta paz...tanta calma...tanto amor, como eu achava que não podia jamais sentir.
No fim ela é só mais um motivo para eu continuar...preferia ás vezes não ter esse motivo...não ter essa desculpa para viver...poder simplesmente dizer que sou persona non grata, que não tenho quem cuide de mim, quem se preocupe comigo, que sou só...eu e eu apenas, mas enquanto houver uma pessoa que me dê essa paz terei de lutar. Não sei o que fiz para merecer o seu amor, mas tenho que agradecer esse amor incondicional que ela me dá. Tenho que agradecer que ela se preocupe comigo, queira saber de mim e queira estar comigo sempre e sempre que todo o seu tempo o permita.
Obrigada Rafi! Eu sei que quando cresceres tudo será diferente, mas queira que fosses sempre criança para me dares essa razão de viver. Quando tu perderes essa inocência de criança o que será de mim?
mais um....
Enquanto vou ritmando o meu pensamento, surgem as imagens das pessoas com quem cruzo meus caminhos...Como odeio sextas e sábados á noite...odeio os sorrisos das pessoas, a alegria no seu rosto, odeio todos, odeio a humanidade inteira e com ela odeio me mais ainda. Odeio a aberração que sou e a hora...num lamento...num gemido de guitarra, odeio a hora em nasci como um nado morto para isto que nem vida é...é apenas dor.
Refúgios são para mim caminhos onde anónima possa odiar...Rodo meia cidade e percorro caminhos iguais aos outros que levam apenas a lado nenhum.
Enfio-me apenas num ritmo alucinante onde me possa sentir segura, e dai talvez não...talvez não me sinta segura em lado nenhum. Quando perdemos o controlo da situação somos apenas mais um comum mortal...O poder sobre os nossos actos e sobre os outros dá nos um gosto de vitoria. A vitória dos tristes, dos solitários, é assim, daqueles que nunca tiveram nada que não apenas a si próprios. As vitórias são passados distantes que foram sonhos...hoje tenho apenas o amargo das derrotas. Cada dia é mais uma derrota, uma batalha perdida...
Mais um anoitecer no silêncio escuro...
Anoitecer
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...
Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bençãos de amor pra toda a gente!
E a minha alma, sombria e penitente,
Soluça no infinito desta hora...
Horas tristes que vão ao meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Ó meu áspero intérmino Calvário!
E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...
se me ouvisses!
Luzes que se apagam lá fora...e dentro o escuro.
Cortinas que se estendem e cerram-se portas.
Deste lado o escuro e o silêncio...depois dele o vazio na alma.
Não me ouves quando te chamo. Não ouves na noite abafada o meu grito de dor.
Não entendes a lágrima que teima em percorrer meu rosto...não entendes...e se Tu não entendes como poderá mais alguém entender?
A Tua língua é distante para mim e Teus confortos são apenas brisas que tocam de leve minha pele branca.
A lua, discreta, por entre as arvores da rua espreita meu peito e encontra uma rocha, onde a erosão da vida foi deixando marcas e os musgos cresceram.
Resta-me a morte das rochas que lentamente se deixam adormecer e transformar em areia...
Sinto me apenas mais um grão de areia na praia.
Olhas o mar e fixas Tua atenção na primeira onda que desliza na areia. Ela vem e serenamente recua deixando sua espuma por entre os grãos de areia. Eu ali mesmo a Teu lado e não me vês. Tu na tua grandeza tens de olhar por algo mais vasto, por uma humanidade ou desumanidade que se perde. Eu também me perco.
Se ainda procuro deixar um legado...entendo agora todo o mal que ele pode conter. Não tenho nada de bom para deixar a não ser a dor, a escuridão por onde vagueio...
E Tu Deus que não ouves minha voz, deixa -me adormecer para talvez ouvir a Tua.
No vazio
Sonhos traidos e desvanecidos por insensatas escolhas...
Caminhos nobres sujos na lama da fraqueza...vergonhas escondidas num rosto frio e pobre de beleza...Alguem sussurrando: Nada lhe deve! Pois que devo eu a ela? Mais me deve ela a mim a desgraça em que encerrei minha alma.
Minha mente vagueia por um limbo...o vazio... e encontra o silêncio.
Na solidão estende sua parca inteligência e aí permanece...Se alguma capacidade de raciocionio tinha, não mais tem. Encerrou-se a sua destreza, a sua vontade de evoluir e de marchar pela via do conhecimento, do sucesso ou equiparar-se ao comum mortal e não a um imbecil sem noção de tempo e espaço.
Quando lhe falam, procura disfarçar o embaraço de não conseguir responder ou sequer entender o que lhe dizem. Junta-se a imbecis que não conseguem manter uma conversa interessante por mais de 10 segundos e aí reina.
Disfarça bem. Porém a sua capacidade de continuar nesta farsa deixa a desejar...já teve melhores dias.
Sorrisos baços e forçados, respostas curtas e convencionais, convencionadas pelo social. Diz o que se quer ouvir dizer, nada sente...apenas o vazio.
Se preparo minha alma para uma partida, julgo-me pronta para seguir. Não mais encontro motivos para ficar, apenas desculpas para adiar a coragem de simplesmente me deixar ir e apenas a certeza de que nada mais posso esperar, nada mais me é dado, nem achado, nem conseguido, nem querido, nem amado, nem sentido, apenas o limbo onde possa nada sentir, pensar, querer, amar, desejar ou conseguir. Aí encerrei para sempre a alma.
O corpo esse, permanece numa vontade social onde os meus passos se deixam guiar por hábitos e vontades que não as minhas.
Se sofro? Não. Não pode sofrer quem já não vive e sente...Encerrei-me para sempre num tumulo cravado por minhas próprias mãos e de lá não sairei para uma próxima vida, mas apenas para um vazio, o vazio onde vagueio agora. Estes são os mortos vivos. Aqueles que estando vivos deixaram morrer, os sonhos, a mente, o querer...a alma perdeu o brilho, a vida, simplesmente adormeceu ... Morrer é isso mesmo deixar morrer alma e não uma matéria chamada corpo.
Eu deixei morrer a alma, porque não tive coragem de matar o corpo. Morresse antes o corpo e não a alma. Doesse antes o sangue frio escorrendo pela testa e não o silêncio da alma, fria, inerte que jaz enfim num canto qualquer sem honras nem cuidados...Esta dor é muito maior, é muito mais penosa porque não se sente apenas vai corroendo-nos com um qualquer acido e transformando-nos num pó...num nada.
Nada mudou...mas em tudo procuro motivos para desculpar a falta de coragem.
Procuro no silêncio encontrar um momento de gloria...um momento para mim.
Fujo de discursos moralistas e procuro nos corpos desnudos dos amantes que não quis conforto para o corpo, porque a alma essa morta está.
Encerro-me em sanatórios onde percorro corredores deambuando por entre loucuras.
Pairando vou....
Adeus
Neste momento o meu coraçao sente apenas uma leve dor, uma dor tão fina que me prende o braço ligeiramente.
Hoje andei uns quilometros. Busquei o silencio e encontrei as lágrimas a dor e procurei ser coerente com os meu sentimentos.
Tomei decisões que mudaram o resto dos meus dias.
Escolhi partir. Aqui deixo as minhas últimas palavras.
Se Deus nos deu o poder de escolher o que fazer com a vida, eu escolhi abondoná-la num qualquer canto, não num canto qualquer, mas num qualquer canto da terra onde escolhi passar os meus últimos dias.
Queria ficar na serra mais linda e aí terminar, mas não quero manchar aquela terra linda que de tão bela me fez emocionar e chorar. Apenas meu corpo inerte e frio ira terminar os seus dias ali. A minha alma vagueará pelo mundo até encontrar uma nova reencarnação.
Deixo as minhas últimas palavras para os amigos.
Tantos momentos bons, tantas pessoas boas encontrei e a todos agradeço.
Não tenho palavras que possa dizer...apenas consigo pedir desculpas por vos abandonar tão cedo, mas tenho que tomar mais uma das minhas decisões disparatadas. Não acerto em nada do que faço só nos amigos que escolhi. Mais uma asneira, mais uma desistência, mas principalmente a última asneira, a última desistência....
Vou despedir-me da minha serra, da minha querida mãe...ainda ouvi a sua voz á pouco e quase não aguentei.
Procuro o silêncio, as conversas banais e dou ouvidos moucos aos conselhos.
A minha lingua não consegue dizer palavras que me vêm do coraçao. da vontade ou da alma, apenas consegue dizer coisas que não compreendo.
Nada de lógicas...estou aprisonada por uma amarra que não sei de onde vêm.
Há horas que não consigo conter as lágrimas...
Sempre que penso em vocês ou na familia, em na minha serra linda, só me aptece chorar, não consigo conter esta tristeza, mas não consigo conter a tristeza maior de não acertar em nada do que faça, em nenhuma das minhas decisões e de tudo o que faço ser errado.
Tudo me enerva. E o que mais me enerva sou eu mesmo.
Um dia iremos voltar-nos a encontrar, mas agora acho que não faz mais sentido esta minha caminhada.
Decidi que o melhor para todos é mesmo partir.
Desculpem qualquer mal estar que tenha causado, não foi minha intensão. Nos últimos tempos distânciei-me porque não quero transmitir esta minha energia negativa, este mau estar que dou a toda a gente.
Quero que saibam que gosto muito de vocês e irei pensar sempre em vocês onde quer que esteja.
Que Deus me perdoe mas decidi partir.
Adeus meus amigos. Rezem por mim bem que vou precisar para a minha próxima vida.
Um abraço forte a todos.
À toa na vida
A vida deve ensinar-nos com a experiência a não cometer sempre os mesmos erros, e aqui volto sempre á mesma questão de cometermos os mesmos erros constantemente.
Por exemplo damos demasiadas oportunidades a pessoas que amamos e sabemos que não iram mudar a certos actos que os ferem. No entanto pela milésima vez aceitamos um perdão e recomeçamos.
Todos nós fazemos isso, quando ao fim de algum tempo deveríamos perceber quu isso só nos trás infelicidade e só nos faz perder tempo, novos oportunidades e paciência.
Com nós próprios fazemos o mesmo, damo-nos sempre mais uma oportunidade para não fazer asneira: desta é que vai ser, e voltamos atentar mais uma vez.
Eu por norma dou sempre mais oportunidades ás pessoas do que devia, e a mim então dou inúmeras oportunidades tentando de facto provar que consigo melhor, mas por norma escolho sempre o pior caminho. Para quem poderia acreditar que pode ser apenas só o mais logo, não é, é apenas um beco sem saída.
No outro dia falava com uma amiga que me dizia que se voltou a encontrar, que agora já ia ao espelho e gostava do que via.
Hoje eu posso dizer que não me reconheço nem no espelho nem em nenhuma das minhas atitudes.
Estou á toa na vida.
Não sei que rume seguir, nem s seguir ou se simplesmente desistir. Queria fazer o mais fácil e quando penso nisso apenas consigo deixar que as lágrimas falem por mim.
Não tenho objectivos, nem sonhos, nem vontade para nada, apenas quero que o sofrimento termine rapidamente.
Desde à muitos anos que se foi esvanecendo a vontade de viver. Esta é uma luta que parece ter deixado de fazer sentido e de valer a pena. Cheguei a um ponto que achei que o devia fazer pelos que necessitavam de mim. Hoje acho que não há insubstituíveis, que todos podemos ter um acidente e ir desta para melhor.
Talvez um destes dias aconteça um acidente e a tortura da vida se acabe.
Take the Lead
O primeiro filme que me entusiasmou a tal ponto foi o Save the last dance. Lembro perfeitamente que as pessoas ficaram sentadas no cinema mesmo depois do filme acabar. No final tinhamos vontade de simplesmente começar a dançar.
Hoje tive vontade de fazer o mesmo, e os espectadores sairam com a mesma reacção.
Mas o mais importante a reter destes dois filmes é a ideia de que se gostas de dançar então sabes dançar. No fundo é o querer é poder. Quando queremos algo com muita força e se lutarmos por esse objectivo entao vamos conseguir obter isso memso.
Eu podia simplesmente dizer que isso é uma treta. Conheço pessoas que lutaram uma vida inteira e chegaram ao final sem ter atingido os seus sonhos.
Se faço uma retrospectiva do meu pequeno percurso posso ver que talvez as minhas lutas não tenham sido com garra suficente.
Cheguei a uma altura em que simplesmente não tinha sonhos, objectivos e as coisas corriam ao sabor de uma vontade que não a minha.
Aqueles miudos não tinham expectivas, ou melhor, eles tinham sonhos, mas não partilhavam e não podiam esperar nada mais do que aquilo que o seu mundo oferecia.
As condicionantes para estes miudos serem o que sonhavam ser eram más, mas o querer, a vontade, a confiança que eles tiveram em si, fez com que eles acreditassem que poderiam mudar e lutassem por isso.
Acho que me falta a confiança, o acreditar em mim. Quando tenho todas as condicionantes para mudar para ser realmente o que quero, faltava me a confiança de que eu serei capaz, e simplesmente me deixo guiar pela mao dos outros. Neste momento apenas posso comparar isto a uma imagem de uma criança que se deixa guiar pela mão de um adulto, enquanto fixa a sua atenção em outro local levantando a sua mão de menina e acenando diz adeus.
A minha atençao está focada em outra coisa qualquer, uma visão cujas imagens não distingo, apenas sei que não é na direcção para a qual me deixei guiar.
Hoje andei o dia todo vageando pela cidade sem rumo. Por isso decidi ir ver o filme talvez me ajudasse.
Quando cheguei finalmente ao ponto de ter mesmo de tentar voltar para casa, até porque o gasoleo estava a terminar, percebi que apenas me resta a solidão. Os meus amigos estão ocupados, têm os seus afazeres, a sua vida e eu não posso exigir a sua presença. Liguei a alguns para ver se ao menos falava com gente. mas apenas constatei o obvio.
No final resto apenas eu e vejo um futuro muito sombrio onde isto apenas tende a piorar.
Tenho que aprender a ser feliz com a minha solidão sem ser um fardo e um peso par aos que me rodeiam. Esta é a minha de terminação: eu serei de facto capaz de ser feliz na minha solidão.
Vageando
Corre o tempo de vagar.
Um dia como outro qualquer, mas que me confunde os sentidos. Procuro lugares incertos ou certamente procuro o que me dá vontade de vaguear.
Entro no carro e sinto prazer na liberdade de vaguear pelo mundo. Lentamente, saboreando e sentindo cada rotação do motor vou deslizando pelas ruas da cidade.
Pessoas passam, os carros passam, eu passo pelo tempo e procuro com a lentidão prolongar o momento até ao infinito.
Saio da cidade deixo-me ir até aos montes, sentir cheiros, sons, texturas e cores diferentes.
Sobre uma pedra esculpida sento o meu corpo cansado.
Deixo de pensar, de sentir de querer e espero apenas. Deixo a espera tomar conta da minha vontade e não sei exactamente o que faço ali.
Vejo ao fundo a cidade, mas não foco a minha atenção nela, nem em nada do que me rodeia, os meus pensamentos voam sem se fixarem em nada.
A espera, a espera que algo aconteça prolonga-se e oiço apenas o relógio dar as horas. Tento prolongar a espera, mas a racionalidade sobrepõe-se a uma vontade irracional de esperar algo que não entendo.
Lentamente encaminho-me para casa e procuro um refúgio na normalidade da vida.
As cores do entardecer
Amarelos, rosas, azuis, laranjas e violetas. Por entre as nuvens e os montes pintam-se no ceu cores lindas como que saidas de um quadro de Dali.
Os dias acabam-se e as horas escorregam pelos dedos da mão como a areia do mar.
Os trovões dos últimos dias fizeram despertar em mim medos.
Certezas ou incertezas, vontade ou apenas obrigação? Quando nos habituamos a pedestais não queremos sair deles, e quando tivermos de o fazer terá de ser para outro mais alto, pelo menos é assim que pensamos. Agora que desci de um pedestal onde estava confortavelmente sentada, arrependo-me do dia em que tomei uma inivitável decisão de me atirar de lá.
Iludi-me com a ideia de que dali so poderia ir para algo melhor. Se arrependimento matasse eu teria morrido no dia em que aceitei o meu mais novo trabalho. Eis o algo melhor. Sinto me apenas uma simples funcionária fabril e percebo que quando digo que estaria disposta a fazer qualquer coisa é pura ilusão. Quando tomamos decisões dificeis e batemos com a cabeça é apenas um sintoma de crescimento, de maturidade, mas por vezes é tão dificil.
Vou entardecendo na vida, ou apenas amadurecendo para a vida como o dia.
Socorro: procura-se ajuda psiclógica!
Como todos sabem eu adoro meter-me em confusão.
Agora arranjei um novo 31.
Imagine-se isto: desempregada tem proposta de emprego.
Ganha consideravelmente menos, tem mais trabalho ou não, as pessoas têm mais expectativas sobre ela mas nem por isso conseguem reconhecer monetariamente isso.
Ora que burra é que aceita um trabalho destes?
Eu definitivamente não aprendo com os erros! Ontem falava com a minha mana e dizia-lhe, que estou de tal forma que se me dissessem vá varrer acho eu ainda assim achava que não saberia fazer isso.
Eu honestamente sou parva, sou uma besta ou sou burra!
Não consigo perceber como posso voltar ao mesmo duas vezes seguidas sem daí tirar conclusões sobre a vida!
A minha mania de querer ter um raio de uma coisa onde me agarrar para manter o meu barco seguro com medo de soltar as amarras e de o deixar navegar pelo mar à aventura.
A mania de achar que irei naufragar na próxima onda!
O que posso eu ter andado a fazer durante 5 anos numa universidade se agora nada do que faço é o que queria fazer?
Que m...de vida. Esta minha cabeça de teimosa não muda nem um pouquinho!
Acho que preciso de ajuda psicológica!
Socorro! Tirem-me deste filme, desta vida parva, destes medos estúpidos, desta minha falta de confiança! Alguém me amarre e me prenda por favor num manicómio para evitar que eu ande a atirar-me constantemente contra as paredes!
Trlhos e atalhos
Verão! Novas cores na serra.
Depois da primavera com as suas cores variadas, vem o verão com o verde, os frutos, e depois os amarelos.
Mais uma face que a serra me mostra. É uma beleza que nunca farta, que se torna viciante e que não envelhece. Está lá e permanece lá renovando-se em todas as estações.
Mais uma vez desci e subi o monte e calmamente como que saboreando a paisagem, vivi o momento.
Confesso que não queria ir. As saudades aumentam cada vez que lá volto. É como chegar a um outro planeta onde tudo é diferente. Sentir-me em casa onde conheço os cheiros, os sons, onde poderia andar de olhos fechados e saber exactamente onde estou. Olhar os olhos das pessoas e saber o que pensam, e saber o que farão. Ver a vida andar tão devagar e ao mesmo tempo nunca ter tempo para tudo e saber que temos tempo para o que importa. Chegarmos ao final do dia e saber que o cansaço é bom, que não pensamos na confusão da vida, que podemos simplificar, levar uma vida calma fora da correria da cidade.
Talvez por estar desempregada, ou de férias permanentes como gosto de dizer, seja tão difícil. Precisava de descansar, mas não quero agarrar-me ao sítio que me deixa sentir segura, mas não livre. Não posso agarrar-me a coisas que temo perder novamente. É a mania de não querer sofrer por achar que vou perder algo que gosto.
Quando voltamos à família, perdemos novamente a independência que conquistamos e ali sinto também isso, perder o que demorei tanto tempo a conseguir e a que custo.
Olho para trás e não me arrependo de ter apostado nessa independência.
Mas agora sinto-me novamente no fundo. Apesar de tentar de todas as formas sair do buraco, continuo com os mesmos mecanismos de defesa as mesmas desculpas do costume para evitar tomar decisões. Passaram 3 anos desde a última vez em que isto me aconteceu e nem assim aprendi com os meus erros.
Tento enganar o tempo com invenções de o que fazer, invento desculpas para estar ocupada quando o que deveria fazer mesmo era arranjar emprego, arranjar o que fazer.
Sair, estar com amigos, rir sem ter porquê, animar os outros quando eu estou mesmo na pior. Acho que no fundo estou mesmo a tentar animar-me, tentar esquecer a vida onde normalmente só arranjo confusão.
Que volta a vida dá, que decisões são estas que tomamos? Serão os caminhos mais correctos, serão os possíveis ou será apenas uma brisa que nos move?
Caminhamos nós por trilhos, por atalhos que pensamos levar-nos mais rápido para a felicidade ou somos vagabundos na cidade à procura de uma abrigo para passar mais um dia?
Tratamento Anti stress
Quando estiver aborrecido, chateado com a vida, com vontade de enfiar uma bala na cabeça ou atirar-se de um penhasco, ou apenas desiludido, limpe a casa.
1) Antes de iniciar o processo beba um copo de uma bebida forte, não o suficiente para o deixar tonto, mas o suficiente para o animar. Recomenda-se que coloque à disposição água para beber durante o processo. Eventualmente poderá substituir a água por outra bebida alcoólica, mas não é recomendável uma vez que isso poderá causar danos irreparáveis na mobília, louça e restantes objectos. O objectivo não é ficar bêbado, mas cansado para poder deixar de pensar na sua vida miserável, fazendo algo útil como limpar a casa.
2) Sintonize o rádio numa antena com muita música de dor de cotovelo, pirosa ou completamente lamechas, mas, e muito importante, que tenha algum ritmo, de preferência que você possa dançar enquanto limpa o pó, enquanto aspira o chão ou lava a louça sem causar estragos irreparáveis. Recomenda-se a Rádio Clube Português.
3) Tente cantar ou emitir grunhidos capazes de imitar os sons que está a ouvir. Se souber cantar tanto melhor, imagine que está num palco, a vassoura poderá ser bastante útil como microfone.
4) Mexa-se tresloucadamente como se os seus membros quisessem sair do seu corpo, mas cuidado procure não tocar em nenhum objecto.
5) Durante o processo certifique-se que não esta a ser observado por alguém, isso poderá ser
usado contra si ou poderá provocar traumas na pessoa que assistir à cena.
6) Jamais em tempo algum poderá desconcentra-se destes movimentos, da letra e do ritmo da música, por muito má que ela seja.
7) Não deverá falar com a vassoura nem com o pano do pó e a sua atenção só poderá ser desviada por uma qualquer sujidade que deva ser energicamente removida.
8) No final do processo, se cumpriu todos os passos com rigor, deverá sentir um cansaço físico mas também um enjoo musical. Não se preocupe é normal.
9) Deverá parar imediatamente antes de desmaiar, desligue o rádio e pare simultaneamente de esbracejar e saltar.
10) Recomendamos que se deite imediatamente sobre a cama ou no sofá. Concentre se pela ultima vez na musica e pense nela sem cantar. Nunca pense na sua pessoa. Leve o seu pensamento de si e da sua existência. Os seus pensamentos são só musica, o seu corpo é apenas pó e cansaço.
11) Adormeça tranquilamente.
12) No dia seguinte quando acordar vai-se sentir completamente na mesma em relação à vida, mas pelo menos teve mais um dia de vida!
Este tratamento tem melhores resultados quando é efectuado a partir das 22h, mas para tal deverá utilizar uns auscultadores caso viva num apartamento de modo a evitar queixas dos vizinhos ou eventuais férias no manicómio.
Este tratamento tem efeito garantido em totós que ficam em casa em vez de saírem para se divertir e conhecer gente nova. É aplicado como terapia de recurso a indivíduos que se olham ao espelho e vêm apenas as suas vidas miseráveis.
Recomendado pela Presidente da Associação de Vidas Anormais A Quem Tudo Acontece e Que Só Se Metem Em Confusão de Portugal e Arredores.