Sorri

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

Como dizia um amigo, habituei-me a não sentir e agora fico assim...assim com esta dificuldade enorme em expressar sentimentos de alegria.
Hoje acordei com um sorriso no rosto, daqueles que se colam a nós e não sabemos como parar.
Acordei com a sensação de que iria establecer outros rumos, que iria ter uma nova liberdade, iria cortar essas amarras que me colaram uma tristeza infinita...
Descobri que talvez as coisas não fossem tão negras, que talvez eu não tivesse de entrar nesse trapézio sem rede, e sorri, sorri com a minha segurança...talvez agora as coisas mudassem.
Por vezes aquilo que parece ser uma tempestade que fará o nosso barco naufragar, é apenas algo que nos faz entrar no rumo certo.
E sorri novamente...
Impressionante! Escrevo montes de coisas, mas a forma como expresso uma boa sensação é desta forma baça: sorri...
Estive a ler Pessoa, Mário de Sá Carneiro e percebi que desde muito nova aprendi a escrever assim, a expressar-me na melancolia. Agora quando quero mostrar Alegria, não sei como fazer...
Parece fantasia...até o Poeta Maior sabia falar de coisas belas e eu fico assim, numa neblina enquanto o sol brilha la fora.

Vou recostar-me no meu sofa e dormir sorrindo. Amanhã tomarei as rédeas do meu destino:
Só vou por onde me levam meus próprios passos...

Conhece-te a ti mesmo.

O titulo que dei a este texto é uma citação de um dos maiores filósofos da humanidade: Sócrates. (para os mais distraídos: não é o PM português.)
Desde a minha adolescência que fixei esta citação, de tal forma que a esculpi em madeira e preguei na parede do meu quarto. Durante muitos anos persegui esta missão: conhecer-me. Mas à medida que vou envelhecendo compreendo a dificuldade que existe nesta tarefa, acho mesmo que nunca chegaremos a terminá-la nem no dia em que morrermos para a vida terrena.

Hoje li um texto de um escritor português que estou a redescobrir que achei excepcional e decidi publicar.

Conhecer-se a Si Próprio

Conhece-te a ti próprio - eis o que é difícil. Ainda posso conhecer os outros, mas a mim mesmo não consigo conhecer-me. Um fio - instintos e um fantasma... Dos outros faço ideia mais ou menos aproximada, de mim não faço ideia nenhuma.
Há uma disparidade entre mim e mim. Há em mim o homem correcto, o homem igual a todos os homens - e o homem que lá dentro sonha, grita e é capaz, por insignificâncias, de imaginar um terramoto ou de desejar uma catástrofe. O que eu me tenho desfeito dos meus inimigos - o que é razoável - mas dos meus amigos que me fazem sombra!...
O meu verdadeiro ser não é aquele que compus, recalcando lá para o fundo os instintos e as paixões; o meu verdadeiro ser é uma árvore desgrenhada - é o fantasma que nos momentos de exaltação me leva a rasto para actos que reprovo. Só a custo o contenho. Parece que está morto, e está mais vivo que o histrião que represento. Asseguro este simulcaro até à cova com os hábitos de compressão que adquiri. Não sei se a maior parte dos homens é assim - eu sou assim: sou um fantasma desesperado.

O meu primeiro impulso é destruir. Depois recuo. E o meu segundo impulso é talvez atraiçoar e mentir. É praticar actos horríveis de sensualidade e de instinto. E se resisto, resisto esfarrapado. Resisto com discussões interiores que nunca acabam e um esforço que me deixa inutilizado e exausto. Resisto, arrependido de não me deixar levar até ao fim - e talvez para me dar em espectáculo a outra personagem que assiste e comenta, que assiste e aplaude com escárnio. Por isso, quando me venço, não tenho mérito nenhum; é por fraqueza ou por vaidade que não pratico o mal. E com o tempo tenho ficado cada vez pior. Mais seco e pior. Desesperado e pior. A vida, em lugar de me elevar, tem-me transformado numa ruína, onde nenhuma raiz encontra suco.
Outra coisa: só extraio sensações da vida. Sou um monstro que existe para traduzir a vida em palavras e mais nada, até chegar ao automatismo de suprimir a realidade a todos os sentimentos que não impressionam a máquina em que me transformo e que bem queria agora inutilizar.

Raul Brandão, in 'O Pobre de Pedir'

Onde ir

Eu não sei o que vi aqui
Eu não sei prá onde ir
Eu não sei porque moro ali
Eu não sei porque estou

Eu não sei prá onde a gente vai
Andando pelo mundo
Eu não sei prá onde o mundo vai
Nesse breu vou sem rumo

Só sei que o mundo vai de lá pra cá
Andando por ali
Por acolá
Querendo ver o sol que não chega
Querendo ter alguém que não vem

Cada um sabe dos gostos que tem
Suas escolhas, suas curas
Seus jardins
De que adianta a espera de alguém?
O mundo todo reside
Dentro, em mim

Cada um pode com a força que tem
Na leveza e na doçura
De ser feliz.

Vanessa da Mata

A uma rapariga

Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.


Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!


Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!


Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste de uma flor!...
Florbela Espanca
Sempre tive uma visão muito fatalista da vida ou talvez apenas uma crença de que existe uma Entidade Superior que comanda a vida das seres humanos como simples marionetas. Antes achava que o que quer que fizemos não poderiamos fugir ao que nos é destinado. Mas depois comecei a achar que essa entidade pode colocar na nossa vida diferentes pessoas ou caminhos, hipóteses de vida que vamos eliminando ou adicionando à medida que vivemos. Comecei a entender que afinal existe um livre arbitrio...podemos escolher o nosso caminho e determinar qual o nosso ritmo de conhecimento para atingir um estado, estado esse que defino como sendo um estado iluminado. Se não existir algo para além deste estado fisico tal qual o entendemos, então a humanidade não fará sentido. Embora existam muitos fundamentalistos quanto a dogmas de fé, todas as religiões sào concordantes neste ponto: tem de existir algo mais.

Partindo deste principio, em determinado ponto da minha vida, comecei a deixar-me de fantasias fatalistas e masoquistas sobre a vida. A única forma de seguir em frente era viver um dia de cada vez, era esquecer o futuro e pensar apenas no que tinha em mãos. Digamos que a vida não foi muito fácil, mas não é facil para ninguém, e existia sempre uma tendência de sofrer antecipadaemnte aquilo que se previa para o futuro.
Depois mudei e a vida sorriu para mim.

Serradura

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No indindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o "Matin" de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da "Capital"
Pelo nosso Júlio Dantas -
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual...

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta...

Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
- Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil - partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar "Viva a Alemanha"...
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade...

Vou deixá-la - decidido -
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Fui desistindo dos objectivos, dos sonhos, de mim, de tudo. Deixei simplesmente de ter ambições ou necessidades. No fundo teria sido mais facil colocar por fim um fim. É como um cancro que lentamente corrompe as nossas células e vai comendo tudo o que é bom à sua passagem...
Fiz tanto planos para o fim, mas confesso que não contava com algo tão lento, tão doloroso onde nem a morfina consegue eliminar a dor...É uma incapacidade para resisitir à tristeza que se acercou de mim. É uma droga da qual estou dependente. Não lembro qual foi o momento em que experimentei pela primeira vez esta droga, o que sei é que não existe tratamento possivel para isto.

Naufrágio

Sentei-me no meu barco e simplesmente deixei-me levar pela brisa...Ha anos que navegava pelo mar sem rumo. Deixei que a brisa levasse meu barco para onde a vontade determinasse...à medida que os dias passavam foi-se entranhando em mim uma certeza que deveria mudar de direcção. Avistei ao longe rochedos e mais tarde ou mais cedo acabaria por embater contra eles. Sempre pensei que este barco não tinha leme, era uma barco diferente de todos os outros...um barco sem leme, sem velas, sem remos, sem motor, apenas um pedaço de madeira que anda à deriva sobre as águas.
Enquanto a brisa durou fui navegando por águas calmas. Mas quando a tempestade se alevantou continuei sentada no barco, esperei calma e serenamente aproximar-me das margens e, quando estava bem próxima peguei no leme e de súbito o barco embateu de forma arrebatadora contra as rochas...
Por uns momentos perdi a consciencia. Quando voltei a mim olhei eu redor e apenas vi pedaços daquilo que tinha sido uma vida...
Há dias que avisto as margens e o meu corpo continua inerte boiando sobre as águas agitadas. Os destroços daquilo que já foi um dia o meu refúgio, daquilo que eram as minhas desculpas para não alcançar terra frime ,aquilo que era o meu chão era apenas afinal um barco que navegava por um mar revoltoso que mais tarde ou mais cedo acabaria por afundar.

E aqui permaneço à espero que recolham o meu corpo e o deixem apodrecer num buraco qualquer onde aguardarei por uma eternidade, a eternidade onde encontrarei a paz.

Amigos

Os verdadeiros amigos são os solitários juntos.
Abel Bonnard


Pela manhã

Acordei com uma vontade de auto destruição. Nas minhas tarefas matinais fiz um flashback dos ultimos dias e percebi que simplesmente pareço ter ligado um botão cuja legenda era: Carregar em caso de emergência/Autodestruição.

Em cada coisa que faço pareço ter apenas um peso que se vê não só no meu rosto como no minha forma de andar e de caminhar, um tique que surgiu de repente, um mancar, um curvar como se carregasse o mundo nas minhas costas. Não consigo olhar de frente para as coisas, para as pessoas ou para o futuro, olho de lado ou de baixo como se faltasse a coragem para continuar.

Ontem estava conversar com uma amiga que não conhecia as novidades e disse lhe de sopro que me tinha despedido. Senti uma mágoa no meu coração que não posso descrever. Sempre que falo neste assunto apetece-me apenas chorar...e por isso tenho remetido-me ao silêncio nos últimos dias. Mais tarde voltarei a ele por agora apenas isto:

Lisbon Revisited

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciêricias, Deus meu, das ciências!)—
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a
Sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul -o mesmo da minha infância
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ô mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos


Como está hoje?(conversa com um desconhecido)

Há dias que preferia simplesmente sentar-me num ponto mais alto e olhar a vida de longe. Como num sonho poderia ver tudo de cima...ver as personagens sem interferir. Analisar, sentir, rir ou apenas lamentar coisas que fiz, que faço ou que ficaram por fazer.

Cada um de nós tem uma forma de ver o mundo...nunca podemos sentir ou entender a informação da mesma forma que o nosso semelhante. Se quer que lhe diga, eu tenho uma visão sempre dramática e pessimista em tudo o que se refere a mim. Eu nunca sou capaz de fazer algo e tenho sempre a firme convicção de que tudo irá correr pelo pior. Ao passo que o meu lema deveria ser, citando Voltaire: tudo corre pelo melhor. Confesso que nem sempre vejo as coisas assim...são hábitos que se colocaram em mim numa tentativa absurda de me proteger.

Se pensar no passado poderia arrepender-me de tantas vezes não ter tomado na minha boca uma palavra, na minha mão um gesto ou no meu rosto um sorriso que mudasse o curso da história. A tudo justifiquei ou desculpei com um destino ou apenas um não momento.

Agora mesmo não consigo mostrar-lhe em palavras o que vai no meu coração. Sim, maravilhe-se ele existe. Eu tenho um coração! Durante muitos anos não me atrevi a considerar a hipotese que era humana, e agora começo a achar que sou demasiado humana. Sempre transmiti uma imagem de distância e sempre contornei de forma habilidosa os temas mais delicados. Mas dei-me conta que ele existe...sacana!
Há muito que a noite caiu e a chuva mansinha entranha-se na minha dor...Esta é a imagem que exprime o que sinto. É clara para si? Pois que para mim é apenas um reflexo num espelho embaciado. A verdade é que tenho um invólucro na minha mente que não me deixa ver além...oiço o silêncio e miro o meu corpo sem me reconhecer, num reflexo de um máscara que criei e insisto em não retirar...colou-se à pele e fundiu-se nas minha células... em todo o meu ser. Toda eu sou uma personagem de um sonho que em breve será pesadelo.

Tenho as dúvidas, os medos e os receios de um ser humano normal. Num momento apetece-me mudar o mundo, no outro apetece-me apenas ficar sentada no sofá e nada fazer. Com este vai e vém de vontades vou enterrando no lamaçal as esperanças, os sonhos, os planos e até o amor próprio. Vou afogando as mágoas em lágrimas que não reconheço...

Quer saber a verdade? Eu já não me reconheço, tomo atitudes de louca!

Sabe, as minhas dúvidas estão entre dois caminhos: um é radical, mudo a minha vida e a de mais meia duzia de pessoas, outra é passiva, nada muda, tudo se mantém e todos ficam felizes...
Entendo que não vou para nova, e se não for agora que tenha os meus devaneios, quando será?

Considero que cresci muito rápido, desde os 18 anos que fui obrigada a ser homem e mulher da casa. Decisões e mais decisões.... responsabilidades e mais responsablidades...e nunca ninguém me disse: Sê irresponsável! Vá lá! Vai! Não mantenhas essa tua postura inflexível de parece mal.
Acredite que tenho ideia de ser uma adulta de 60 anos, o meu olhar é o de quem sabe que não deve esperar muito da vida.

Neste momento a única coisa que quero esperar é encontrar-me algures por entre os escombros dos últimos dias...
Será que me pode dar uma ideia de um caminho que não o da loucura? Mas por favor não venha com as palmadinhas nas costas...mostre-me algo de concreto não me mostre o obvio!... Eu já sei tudo isso...
Mudemos de assunto...Falemos de si como está você hoje? E como será que vai estar o tempo amanha?

No princípio

Saudações a todos os que visitarem as palavras que escrevo umas vezes com coração e outras com razão.
Decidi colocar à disposição de todos aquilo que habitualmente escrevo num pequeno caderninho preto com uma letra que ninguém (nem eu) percebe.

"No princípio Deus criou os céus e a terra. A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo,...Deus disse: Faça-se a Luz."
Gen. I, 1-3