Em cada coisa que faço pareço ter apenas um peso que se vê não só no meu rosto como no minha forma de andar e de caminhar, um tique que surgiu de repente, um mancar, um curvar como se carregasse o mundo nas minhas costas. Não consigo olhar de frente para as coisas, para as pessoas ou para o futuro, olho de lado ou de baixo como se faltasse a coragem para continuar.
Ontem estava conversar com uma amiga que não conhecia as novidades e disse lhe de sopro que me tinha despedido. Senti uma mágoa no meu coração que não posso descrever. Sempre que falo neste assunto apetece-me apenas chorar...e por isso tenho remetido-me ao silêncio nos últimos dias. Mais tarde voltarei a ele por agora apenas isto:
Lisbon Revisited
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciêricias, Deus meu, das ciências!)—
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a
Sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul -o mesmo da minha infância
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ô mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
1 comentário:
A pedra voará e o pássaro caminhará se isso for o caminho para a sua felicidade. Ninguém lhes poderá tirar o poder de escolher ou de decidir o seu caminho, ainda que aparentemente isso seja contra a sua natureza..."eu sou eu e a minha circusntância".
Enviar um comentário