A noite mostra aquilo que as paredes escuras, os ruidos e a correria da cidade escondem.
Há coisas que me afectam profundamente, transportam tal energia negativa que me deixam doente.
Há pouco passei por um local na cidade, um local como todos os outros, mas onde o cheiro a podridão tresanda e penetra na nossa pele como cal.
Tem ali um bar onde não gosto de ir particularmente, não só pelo ambiente mas principalmente porque tenho de sentir aquele cheiro a decadência.
Nasci no seio de uma família que sempre me poupou a esses ambientes, a essas visões e educando-me religiosamente tentou proteger-me de tudo o que a sociedade tinha de negativo.
O meu Pai uma vez quase me batia quando lhe pedi para ir a uma discoteca, eu tinha 18 anos e ía com a minha irmã, mas diga-se em abono da verdade que na discoteca em questão só havia confusão todas as noites. Nunca o vi tão furioso.
Talvez por este excesso de protecção ou talvez porque eu seja apenas muito sensivelzinha, estas coisas me afectem tanto. Detesto ver pessoas que perdem a noção do tempo e do espaço e caiem bêbedas no chão, ou pessoas que se injectam mesmo á frente de quem passa para curar uma ressaca. Mas aquilo que mais me deixa doente é ver uma mulher vender o seu corpo, o corpo que lhe foi dado como bem mais precioso.
Uma vez, nessa mesma rua, entrei num café (tasca) com uns amigos que insistiram muito para beber qualquer coisa. Numa mesa do café estavam sentados 2 homens e uma prostituta. Um deles era mais velho o outro mais novo. Estavam todos bêbados e a prostituta estava agarrada ao velho. Do piso inferior vinha um barulho ensurdecedor e de vez em quando umas figuras sinistras subiam ao andar superior e voltavam a descer. Os meus amigos mantinham uma conversa amena e eu passei a entrar num transe deixando de responder ou falar a qualquer estímulo.
Na minha mente estava apenas aquela imagem de decadência. Minutos depois começa uma violenta discussão entre as 3 personagens da mesa e eu pareci acordar do transe, comecei a sentir-me mal ao ponto de achar que iria desmaiar ali mesmo. Virei-me para a minha amiga e pedi para irmos embora.
Nunca me senti assim. Não voltei mais aquele café.
Hoje, naquele que eu pensava ser um fim de noite calmo, assisti a algo mais assustador.
Passei na mesma rua e tive de estar em frente ao tal barque não gosto e que fica apenas a uns metros da tasca. Era meia-noite.
Uma criança estava sentada nas escadas com uma bola na mão.
À partida, e na minha forma de pensar de criança sem malícia, achei que estaria ali com um adulto.
À medida que me aproximo reparo que o menino está sujo, sentado no chão sujo, com uma bola ainda mais suja na mão. Procuro não fitar os seus olhos, mas apenas sentir os seus movimentos.
A minha amiga sai do bar e ele dirigiu-se a ela perguntando se quer jogar á bola com ela. Nesse instante entendi que algo de errado estava a acontecer ali.
O meu coração parou numa fracção de segundos, como era possível que a minha cidade tivesse crianças que dormem na rua, crianças dispostas a vender-se por uns míseros dinheiros, crianças que a vida desde tão cedo obrigou a tornarem-se adultos, que perdem a dignidade, a vontade e que se regem apenas por uma lei de sobrevivência?
Por uns segundos procurei-lhe a alma e apesar da sua voz de menino, entendi que o brilho dos seus olhos de criança não estava lá...perdeu a sua meninice, a sua infância, a sua inocência nas ruas de uma cidade que o devia proteger.
A sociedade é selvagem com os seus indivíduos e naquele momento fugi de algo que não compreendia, fugi de uma dor que não percebia e por isso mesmo senti uma revolta pela minha impotência.
Não entendo como o homem pode ser assim para si mesmo! O que nos leva para as ruas da decadência? Que ser humano somos nós quando os animais conseguem ser mais sensíveis?
"Aqui, deposta enfim a minha imagem,/ Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,/ No interior das coisas canto nua./ Aqui livre sou eu - eco da lua/ E dos jardins, os gestos recebidos/ E o tumulto dos gestos pressentidos,/ Aqui sou eu em tudo quanto amei." Sophia de Mello Breyner
A decadência da sociedade
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