Hoje tenho a leve sensação que perdi alguma coisa.
Um membro da família partiu para longe. Normalmente não choro nas partidas...Há muito que deixei de o fazer.
Habituamo-nos a partidas e chegadas e levamos tudo numa simplicidade, mas hoje...hoje fiquei assim...
Na hora não liguei, segui caminho sem pensar. Agora, depois das horas passarem, acercou-se de mim uma tristeza.
Nos momentos mais sensíveis ficamos assim...Acho normal até acontecer..talvez seja porque agora num momento onde deveria demonstrar força, que tudo me afecta.
Mal me contenho para não desabar á frente de alguém.
Os pensamento voam e as vontades se detêm perante o degrau da porta.
Há dias assim...dias em que pensamos ser apenas folhas no Outono, folhas que se deixam levar pela brisa do vento e beijar pelas primeiros pingos da chuva.
Eu sinto-me uma folha caída, tocada por uma velhice no olhar.
"Aqui, deposta enfim a minha imagem,/ Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,/ No interior das coisas canto nua./ Aqui livre sou eu - eco da lua/ E dos jardins, os gestos recebidos/ E o tumulto dos gestos pressentidos,/ Aqui sou eu em tudo quanto amei." Sophia de Mello Breyner
Há dias assim...
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1 comentário:
"Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?"
in Passagem das horas
Alvaro de Campos
Poderia apenas acrescentar a loucura de mais um poema que fala por mim.
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