O meu orgulho

Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velhos faz nascer as rosas!

As minhas mãos outrora carinhosas
Pairavam como pombas... Quem soubera
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos não dão rosas!

O que eu mais amo é que mais me esquece...
E eu sonho: "Quem olvida não merece...
E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha,
E também é nobreza não ter nada!

Florbela Espanca

E ainda tu e sempre tu...
Digamos que existe uma perseguição por ti, tal como tu me persegues a mim.
Tutora na mágoa.

Perseguem-me os fantasmas de uma poesia que me viciou numa necessidade de sofrer, de ser sofrida, de não ser achada nem tida em coisa alguma.

E nada do que dizes me faz sentido, porque frio é o mar onde espelho minha alma e os sentidos perdi.
Se te digo que eu sou tu ou tu me dizes somos nós, eu afirmo com verdade que eu sou só, e não sou nada nem ninguém por entre versos em prosa que me vêm de uma vontade que não tem saber em fazer poesia das palavras que não sei.
Nada sou e serei alguém no dia em que o mar salgado, por lágrimas que não tenho, for doce por finalmente ser aquilo que sonhar.

3 comentários:

viegas disse...

Diálogo com Florbela...em dias onde a poesia é a palavra que fala por nós.

Anónimo disse...

Por falar em poesia

ontem ouvi na antena 3
um grupo que lançou um dvd
com poemas de fernando pessoa
e heterónimos
musicados
cantados
e com vídeo

Gostei muito
daquilo que ouvi

e fiquei entusiasmada
para ouvir o resto

Beijinhos
Sílvia

viegas disse...

Vamos a isso!
Nada melhor que Pessoa. Estive a ler umas coisas dele e amei, melhor ainda, se me permites a calinada no português, Re-amei, redescobri a maravilha e o génio e como nunca tinha acontecido antes, entendi aquele que chamo de Poeta Maior. Entendi cada verso, cada silaba cada sentimento. Minha alma chorou e riu baixinho...