Luzes que se apagam lá fora...e dentro o escuro.
Cortinas que se estendem e cerram-se portas.
Deste lado o escuro e o silêncio...depois dele o vazio na alma.
Não me ouves quando te chamo. Não ouves na noite abafada o meu grito de dor.
Não entendes a lágrima que teima em percorrer meu rosto...não entendes...e se Tu não entendes como poderá mais alguém entender?
A Tua língua é distante para mim e Teus confortos são apenas brisas que tocam de leve minha pele branca.
A lua, discreta, por entre as arvores da rua espreita meu peito e encontra uma rocha, onde a erosão da vida foi deixando marcas e os musgos cresceram.
Resta-me a morte das rochas que lentamente se deixam adormecer e transformar em areia...
Sinto me apenas mais um grão de areia na praia.
Olhas o mar e fixas Tua atenção na primeira onda que desliza na areia. Ela vem e serenamente recua deixando sua espuma por entre os grãos de areia. Eu ali mesmo a Teu lado e não me vês. Tu na tua grandeza tens de olhar por algo mais vasto, por uma humanidade ou desumanidade que se perde. Eu também me perco.
Se ainda procuro deixar um legado...entendo agora todo o mal que ele pode conter. Não tenho nada de bom para deixar a não ser a dor, a escuridão por onde vagueio...
E Tu Deus que não ouves minha voz, deixa -me adormecer para talvez ouvir a Tua.
"Aqui, deposta enfim a minha imagem,/ Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,/ No interior das coisas canto nua./ Aqui livre sou eu - eco da lua/ E dos jardins, os gestos recebidos/ E o tumulto dos gestos pressentidos,/ Aqui sou eu em tudo quanto amei." Sophia de Mello Breyner
se me ouvisses!
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