"Aqui, deposta enfim a minha imagem,/ Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,/ No interior das coisas canto nua./ Aqui livre sou eu - eco da lua/ E dos jardins, os gestos recebidos/ E o tumulto dos gestos pressentidos,/ Aqui sou eu em tudo quanto amei." Sophia de Mello Breyner
Crónicas: Hoje seríamos felizes
Lembro-me de ti com o teu olhar de menino. Lembro-me do nosso olhar de meninos. Por de trás da tua voz rouca de adolescente estava o teu olhar de menino.
Olhavas-me de canto e eu olhava-te por trás dos móveis, das portas e fugia sempre que me procuravas.
Nesse dia decidimos esquecer para sempre o nosso amor de criança.
Lembro-me que vinhas sempre tão bem arranjado, com as tuas calças bege e a tua camisa a condizer, e eu, com a minha roupa desajeitada, as minhas velhas calças com flores e a minha t-shirt azul, sempre tão pouca feminina e tão maria-rapaz.
Nesse dia ficaste na ponta da mesa e trocávamos palavras com olhar e com o silêncio que calava todos os comentários que se faziam sobre nós.
Fugia sempre que alguém se dirigia a mim. Inventava mil desculpas e escapulia-me pela porta dos fundos e ficava encostada à parede a ouvir as vozes do outro lado.
E foi ali nesse dia que escolhemos mudar o rumo das nossas vidas, escolhemos mudar o destino, escolhemos a infelicidade.
Foi nesse dia que te perdi, que me perdeste e que os nosso olhares nunca mais se cruzaram.
Hoje podíamos ser felizes.
Hoje os nosso filhos correriam pela casa e iriam enche-la de risos. Vejo-os correrem a abraçar as pernas do avô e vejo o seu olhar de alegria, um olhar que nos abraçaria com amor.
Ele gostava tanto de ti como a um filho. Teríamos sido felizes.
O meu mundo seria tão mais pequeno do que é hoje, mas sei que seria feliz ao teu lado. Sei que seria uma felicidade simples com as coisas simples da vida.
Sei que não teríamos perdido o nosso olhar inocente de meninos, o brilho dos nossos olhos, o brilho do amor.
Hoje não somos felizes.
Escolhemos um caminho que não era o nosso. Não nos escolhemos. Preferimos seguir o rumo do abismo, do medo e da incerteza.
Queria apenas voltar aquele momento em que ficaste ali a olhar para mim. Voltar ao momento em que por um segundo depois de todos partirem, ficámos ali no nosso silêncio e simplesmente abraçar-te, pedir que ficasses, garantir-te que seríamos felizes.
Meu amor, hoje sei que te perdi. Hoje sei que perdi tudo, que perdemos tudo, porque sei que também tu não és feliz.
Se o tempo voltasse atrás sei que hoje seríamos felizes.
Teríamos a nossa casa pequenina ao fundo do quintal dos teus pais, cheia de cor, de luz, de amor.
Eu esperar-te ia ao final do dias sentada na soleira da porta com o nosso mais novo nos braços, e o mais velho, a brincar no pátio, correria a abraçar-te quando te avistasse na curva da estrada.
Contarias à lareira as novidades do dia sentado no banco de madeira, que fizeste do carvalho velho da eira. Os teus filhos olhariam para ti com um ar de admiração. E eu beberia todas as tuas palavras, todos os teus gestos de amor que seriam para mim como fonte de vida.
À noite dormiríamos unos abraçados no nosso leito como membros de um corpo só, sempre juntos, incapazes de nos separamos, gomos de uma mesma laranja, faces do mesmo rosto.
Mas hoje sei que escolhemos outro caminho, um caminho que só nos trouxe dor. Quando tivemos tudo para ser felizes escolhemos apenas a dor.
Nunca mais os nosso olhares se cruzaram meu amor, mas sei que sofres. Sei que tal como eu procuras a felicidade. Sei que no dia que a encontrares também eu a encontrarei, nesse dia descansarei, nesse dia finalmente descansarei a minha busca.
Sei apenas que hoje seríamos felizes.
Esta é a única esperança que tenho, que hoje seríamos felizes.
Enjoos
Revolvem-se dentro de mim as entranhas numa vontade louca de vomitar.
E um grito louco em tom de pergunta: Meu Deus, Meu Deus! Porque me abandonaste!
Martela-me todo o dia este brado louco! E logo a dor que se revolve dentro de mim....e um enjoo, um aperto na barriga e encolho-me na dor e aperto com força como se quisesse espremer a agonia.
Um enjoo disto, isto que se chama vida e uma raiva que se pudesse me atiraria agora já por esta varanda para acabar com esta agonia.
Um enjoo da vida da puta da vida em que estou que não há droga que alivie este enjoo.
Negra condição! Mas que condição! E o silêncio que me alivia a dor não me tira o enjoo.
E esta cólica mais uma vez...Ai! Aaaaaaaaai!
Contorço-me de dores agora num soluço, num pranto, num choro sem lágrimas. Atiro-me para o chão e debruço-me sobre a agonia.
Rebentam-se me as entranhas numa dor que me morde a alma. Cão danado este! Vai daqui cão danado! Larga-me! Deixa-me no meu lamento! Deixa-me! Por favor deixa-me!...
Deito-me e no chão frio e duro da sala e choro baixinho...
Até quando?
Madrugada
A luz entra pela vida com uma timidez que encanta.
Ao longe, num azul gelo, as serras recortam o horizonte pintado em tons rosáceos.
As páginas do livro voltam-se com a brisa do vento matinal desviando a minha atenção do horizonte.
Os melros laboram na sua busca madrugadora por comida voando entre as árvores do jardim. E os pardais, num frenesim, refastelam-se com as peras deliciosas no quintal.
Começa mais um dia igual a todos os outros dias de verão.
Os ciclos da vida mantêm o seu rumo. Os dias nascem e morrem com exactidão, tal como nós seres humanos morremos e nascemos, mas com uma incerteza do que será o amanhã. Uma agonia...
O ciclo da vida.
Os dias correm num vagar de pregão serrano...num eco que vai e volta. Dooooor!
Os primeiros raios de sol despontam nas árvores do pinhal.
Os telhados despertam para as suas cores e o branco do casario brilha agora.
Na vila agitam-se as gentes num corrupio. Lenta dor agora...
Na aldeia os pregões das carpideiras: é vida! Cada um tem o que merece! Uns vão e outros ficam! A sorte e só para alguns! Cá se fazem cá se pagam!
Movo-me sobre o banco e ergo minha cabeça para um olhar indiscreto sobre o vizinho que desce vagarosamente a escada. Bom dia ti António!
Num repente um raio de sol bate no meu rosto obrigando me a um serrar de olhos. O sol! Bom dia meu amigo!
O pessegueiro, agora como que iluminado, reina no quintal entre todas as outras.
Encosto-me agora e rendo-me ao cansaço.
Agora que vistes durmo nos teus braços quentes.
Agora que me deste a luz posso sonhar com o paraíso.
Lá em baixo na vila começa a vida e eu adormeço para ela e procuro em ti a paz.
Retalhos de sentimentos com chuva
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!
Florbela Espanca
Para os que se preocupam ou fingem preocupar comigo, não temais senhores, porque a dor será a minha companheira, outra igual eu não sei encontrar.
E se no caminho me assaltar algum temor de a perder, logo encontrarei a tristeza que é luz do meu olhar.
Mansamente te aninhaste a meu lado e eu, absorta na minha solidão, nem dei por ti.
Os meus cabelos se cobriram de gotas minúsculas que se tornaram em lágrimas sem choro, apenas senti o cheiro doce da terra molhada. E tu, que chegaste lentamente para roubar meus pensamentos, quando me tocastes sentiste apenas o frio das rochas e achaste que eu tinha morrido. Lavaste meu rosto manchado pela dor e cobriste minha cabeça com um manto cristalino. E o céu chorou por mim sem eu ter partido.
Agora que sinto o frio nos ossos posso jurar que morri. As minhas pálpebras cerradas e as minhas mãos unidas contra o peito já não as sinto, apenas o oiço. Oiço essa maldição que persegue num bater incessante que não sai do meu peito...
Adormecer...adormecer para não mais o ouvir...
Quero não mais o ouvir!
Cansei ouvir esse bater...
Se cada dia é igual no vazio, porque persisto numa fé? Nessa fé de que o amanhã será igual.
Quando me perguntam se não há nada de novo, nem sei mais o que responder. Quando se dignam ouvir-me nem sei do que falar, porque nada mais tenho a dizer que os meus olhos não digam em lágrimas.
Só a chuva me entende no silêncio. Só a chuva me abraça e me consola as dores.
Gritos mudos e desesperados no silêncio da chuva...os meus gritos mudos por ti, e não vens levar-me para o Teu reino onde eu possa Te abraçar e finalmente adormecer nos Teus braços Senhor!
Teatro: a velha e o seu amor
Inventemos uma felicidade, um amor, uma tristeza ou até uma dor e se o poeta é um fingidor, então vamos fingir uma loucura.
Primeiro Acto
Na casa do cimo da aldeia, num dia tempestuoso a velha louca trauteia uma cantilena a um amor que ficou numa vida passada e o qual espera desde então:
Sentei-me na soleira da porta da casa e esperei por ti.
Perdi a noção ao tempo em estou aqui.
Nas paredes que me recordo com sua pedra nova e limpa, vejo agora o negro.
Os musgos cresceram no colmo do telhado, por onde as pingas da chuva entram confundindo-se com as minhas lágrimas.
Dentro o pó tomou conta dos móveis, tomou conta do coração perro e enferrujado pela dor.
Meus olhos fixaram-se no horizonte e aí procuro distinguir a tua silhueta, mas não vejo...
Por vezes no meio da loucura olho a miragem de ti, mas não és...
Passas com as caravanas dos saltimbancos que subiram à aldeia para entreter o povo, mas não ficas...
Aqui meu corpo imóvel e inerte não vive desde o dia em que partiste, porque nunca exististe...
Juraste teu amor eterno e eternamente aqui estou, porque nunca vieste...
Desde o momento em que abri meus olhos para esta vida espero por ti, porque nunca te tive meu amor?
Fim de cena
A velha morta na soleira da porta e o povo passando na rua sem reparar que ela há muito que se deixou de ouvir.
Ao longe no horizonte distingue-se a silhueta de um homem.
Fim do Primeiro Acto
Depois de uma conversa com um amigo
Futuro promissor. Dormir até tarde, fazer alguns dos deveres com clama e descontracção.
Meio da tarde tomar café com um amigo...ir ás compras...jantar e eis que de súbito um telefonema, outro amigo a convidar para tomar café.
Dia normal até aqui.
Estamos a falar de um amigo que diz, e reconheço que sim, foi dos que mais me empurrou para eu mudar a minha forma cega de me ver no mundo.
Já não o via há algum tempo e achei que seria bom conversarmos um pouco, saber com ele ia, o que tinha feito. Engano total. Afinal era só para falar do mesmo de sempre: de mim...que aborrecimento.
Conversas sérias em tempo de férias é terrível. Pior que isso é não chegarmos a conclusão nenhuma, porque tal como ele diz os meus argumentos são sempre os mesmos.
Mas agora, aqui neste cantinho virtual que ninguém lê eu vou-te dizer aquilo que não consegui dizer-te na hora, nem a ti nem a ninguém.
Ao contrário do que tu dizes tu não me mostrastes o sol e eu na minha cegueira não o vi. Não. Tu mostraste-me o sol por detrás de uma nuvem e eu que imaginasse o resto. Mas de facto há uma coisa que tens razão, nada mais podias fazer por mim. Nada mais podias fazer.
Tu queres saber o que é de facto o meu problema, porque é que eu não consigo sair do quarto escuro? De facto tu não me poderias ajudar nunca, nem tu nem nenhum dos meus incansáveis amigos.
Sabes porque é que eu fico tão segura no escuro da minha solidão? Nunca ninguém me mostrou que eu poderia sair dessa solidão apenas com algo mágico como o amor. Tu não percebes isso, nem tu nem ninguém percebe isso, nenhum de vós os comuns mortais que já amaram e já foram amados. E eu na minha solidão não amei nem fui amada. Nunca ninguém me disse: meu amor.
Queres melhor antídoto para a minha insanidade do que isto? Sabes o que é passar na rua e ver a felicidade no rosto dos outros e perceber que de facto a única coisa que nos falta para sermos realmente felizes é isso? Será tão difícil perceber isso? Tu próprio não te sentes em baixo quando estás sozinho? Que mais podes fazer por mim? Que mais posso fazer eu por mim? Inventar um amor? Colocar um anúncio no jornal: Rapariga solteira e com beleza interior de sobra, procura amor sério e para compromisso futuro. Parece-te bem?
Tenho muitos amigos e todos gostam de mim, a minha família gosta de mim, as pessoas que trabalham comigo gostam de mim e sempre gostaram do meu trabalho, mas porra! Nunca me aconteceu algum filho da mãe me dizer: meu amor. E meu caro eu sei que nenhum prazer físico do mundo me irá satisfazer uma necessidade infinita de sentir amor! O prazer físico nunca irá fazer superar o prazer de ouvir dizer: meu amor.
Parece uma loucura, mas é verdade. O que me falta para ser feliz, para ter a MOTIVAÇÃO de mudar a minha vida, de ser o que realmente quero ser é amor... Simples não é?
Como posso eu chegar ao espelho e achar que estou bonita, se quando eu virar costas ninguém me disser isso. Não é no espelho que eu quero ver a beleza ou o amor, é, tal como tu escrevias e muito bem, nos olhos de alguém.
Tonto...não sabes onde falhaste! Ficas desapontado, porque falhastes como amigo! Não meu caro senhor, você fez o que podia e mais não lhe era pedido, espero é que não o tenha feito por frete e se o fez, lhe peço desculpa. Mas não se ire por mim, nem por si.
Você não me poderia dar algo que eu ainda tenho esperança de algum dia poder encontrar: o amor nos olhos de alguém. Isso é a minha única luz ao fundo do túnel, será a minha razão final para realmente eu apreciar a vida, será a minha razão de viver! Saber que terei sentido o amor completo na sua plenitude será o motor para eu renascer da morte da alma.
Ter realmente aquilo que tal como dizes eu mereço, que no fundo todos merecemos, ter sentido tudo o que poderia sentir, além da tristeza que todos os dias me acompanha, é que me fará mover.
E sabes, com a idade desaprendemos a sentir e o medo que me atormenta é ter deixado passar o tempo de realmente sentir, de saber sentir, de saber mostrar o que sinto, o medo de me ter tornado apenas uma rocha impermeável ao amor.
Sabes, depois disto nada mais me resta dizer. Nada mais me resta mostrar. Aqui está a minha alma nua. E todos aqueles que lerem isto conhecerão aquilo que eu tão insistentemente persisto em esconder, a tristeza é esta, por isso eu me odeio tanto e mais nada...
Depois disto poderei simplesmente morrer, porque tudo sobre mim está dito, escrito, conhecido vivido, sentido...
Está é a minha auto biografia final, o meu legado, o meu testemunho, a minha herança é esta: viver sem amor é apenas ser um morto vivo... E quem nunca sentiu o amor nunca viveu de facto.
E vós comuns mortais como eu o que tendes a dizer a esta verdade? Dói não é?
A vida como ela é
Das pessoas que conheci ao longo da minha vida todas me surpreenderam com as suas atitudes, mas raros foram aqueles que o fizeram de forma positiva. Esses raros seres humanos foram alguns dos amigos que ainda mantenho. Não é justo que conte aqui com a família, porque tal como diz o outro "Podemos escolher os amigos, mas não podemos escolher a família".
Nunca fui de cultivar inimigos, mas também nunca fui de ter muitos amigos.
Posso dizer que ao longo do tempo fui cultivando algumas boas amizades, pessoas que foram ficando, que me deixaram ficar, que me convidaram e convidam a entrar nas suas vidas. Nada mais aprazível do que sermos convidados para a vida de alguém.
Eu tenho a mania de necessidade de reconhecimento público, tenho a mania de ser egocêntrica, no fundo de ter que ter a atenção de todos. Talvez seja apenas um trauma de infância, ou para quem acredita em reencarnação, um trauma de uma vida passada.
Fico magoada quando algum amigo me decepciona, mas sou capaz de esquecer e seguir em frente. Apesar do meu orgulho, da minha teimosia, sou até capaz de dar uma centena de oportunidades a essa pessoa ou até de reconhecer que talvez eu não estivesse num dia bom, que talvez fosse apenas um mal entendido.
Não guardo rancores e procuro sempre esquecer os maus momentos, mas quando estou num dia mau posso ser muito má e injusta, simplesmente cortar a direito e dizer ou fazer o que vier à cabeça.
Nos últimos tempos afastei-me das pessoas apenas e só para não as consumir com o meu mau humor, mas agora que estou a atentar recuperar os laços e a tentar mudar de humores para ver o mundo com uma nova perspectiva, reconheço que fui cega a muita coisa, que fui um anjinho e perdoei certas atitudes que talvez não devesse permitir. Num período de mudança estamos sempre mais susceptíveis, e por incrível que pareça, ficamos mais permeáveis e coisas grandes e menos tolerantes a coisas pequenas, aquilo que vulgarmente chamamos tempestades num copo de água.
No período de mudança que estou a atravessar acho que me deixei vencer por essa susceptibilidade e deixei que algumas pessoas me induzissem no erro, tomassem vantagem e me iludissem com o ouro dos tolos.
Talvez deva começar a abrir os olhos, a não admitir algumas coisas e a ser mais firme em outras. Talvez nem todos devam ter tantas oportunidades como as que tiveram. Talvez eu deva ser menos anjinho e perceber que existem pessoas que só se querem aproveitar da minha ingenuidade e da minha bondade, levando-me a seguir um caminho que é bom apenas para eles e sem contrapartidas para mim, fazendo-me impor regras que eu nunca seguiria, e obrigando-me a ter atitudes que nunca teria.
Ao longo da minha vida aprendi a não ser calculista, a não fazer da vida um jogo de xadrez onde dispomos as peças ao nosso bel-prazer para atingir um objectivo defino. Como as pessoas conseguem ser tão sacanas ao ponto de passar por cima dos outros, dos seus sentimentos e dos seus sonhos? Como é possível que o ser humano um ser social e racional, consiga tomar atitudes que em muito se assemelham aos animais, onde o único instinto é o da sobrevivência? E não me digam que a desculpa é a de que o mundo é uma selva! O mundo era uma selva até o homem se tornar num ser racional que pensa, cria e transforma. Mas o homem não tem capacidade para criar com exactidão com perfeição, com equilíbrio. Enquanto não deixarmos de ser tão egoístas, de ser tão básicos, tão materialistas, tão agarrados a prazeres terrenos que nada têm a ver com a inteligência, não deixaremos de ser animais.
Mesmo pessoas que se consideram inteligentes, valorizam coisas tão terrenas que permitam-me que as considere apenas bestas. Prefiro ser desprovida de pouca cultura, ser simples, ser um pastor que olha para as montanhas e valoriza todos os dias a sua beleza, porque sabe que o seu sustento está a ali e que se não as proteger não terá o seu futuro e o dos seus filhos garantido. Preferia ser pobre, mas ser feliz, ter amor, ter paz e harmonia. Preferia viver no meio das rochas que oram todos os dias e serenamente cumprem o seu papel sem se lamuriar ou irar contra a sua natureza. Isto é apenas uma questão de sabedoria.
A inteligência nada tem a ver sabedoria. O homem não caminha para a simplicidade da sabedoria para poder chegar à felicidade, apenas caminha por um caminho tortuoso como a inteligência para chegar à desumanidade.
Começo a ficar cansada destes jogos. Nunca gostei de jogar e como nem as regras deste jogo sem lei sei, prefiro mesmo não entrar nele, mas todos os dias a vida me vai atirando com lama para a cara. A vida no fundo é assim é um jogo.
Perdemos e ganhamos e por vezes perdemos pessoas que estimamos, apenas só porque não queremos entrar no jogo onde sabemos que vamos perder-nos.
Uma nova perspectiva ou apenas uma brisa de razão para a minha pobre mente desprovida de inteligência para alguns e tão nobre para outros? Num desejo apenas peço:
Que a razão esteja do lado dos fracos e dos loucos que se deixam levar por mentes onde não reina a inteligência, mas apenas a maldade e a esperteza dos ímpios.
Que a sabedoria finalmente se atravesse no meu caminho para eu deixar de tomar as decisões que me deixam mais longe do meu caminho para a felicidade.
Que o coração não se deixe guiar pelo vício da maldade e do ódio.
Afasta-me daqueles que me deixam ficar apenas cicatrizes na alma e no coração, porque me fazem passar por louca, por tola ou imbecil, por uma coitadinha desprovida de razão e capacidade de decisão.
E quando a minha cabeça cansada quiser tombar perante a vergonha ou a humilhação, que se levante na certeza de que neste jogo que é a vida, eu não serei perdedora desta guerra.
As tuas minhas poesias
Tenho tanto sentimento
Que e' frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheco, ao medir-me,
Que tudo isso e' pensamento,
Que nao senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
- Fernando Pessoa
Escrevo aquilo que me passa pela mente com sofreguidão de criança que conta uma novidade.
Mas quando dou por mim e ler Pessoa, vejo que tudo o que disse está escrito.
Não sei que sintonia louca é esta que nos une, apenas sei que nada mais possa dizer que tu já não tenhas emoldurado num poema qualquer com sofreguidão de loucura.
A novidade que me trazes ao ler um novo poema, é apenas uma lembrança do um passado que não sei em que tempo situar. Ficou a lembrança e o sentimento e mais nada posso saber.
Loucura de escrever, de inventar uma vida colorida de cinzentos. Se fosse um desenho seria uma pintura em tinta-da-china, onde apenas se percebe uma folha caída sobe as águas do lago.
Insisto na tua loucura, na minha loucura, criando apenas uma vida paralela a outra onde me perco por caminhos que não quero, onde insisto em pesadelos que não os meus.
Desisti de lutar pelos meus sonhos, por mim, por aquilo que realmente desejo e sou e por aquilo que o destino traçou para mim.
Desvio-me do destino com precisão surpreendente e transformo as oportunidades em muros e não em portas que se abrem para o horizonte. Teimo numa fuga pelo deserto e fujo de um oásis quando o vejo.
Quero voltar a ser eu, a ser o que desejo e não apenas um espectro de alguém que nunca fui.
Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Anjo caído!
A idade vai ensinando a dar valor ao amor.
Há medida que vamos envelhecendo vamos aprendendo a dar valor ás pessoas que amamos, aqueles que nos despertam bons sentimentos, que nos fazem sentir felizes. Mas a idade tem um senão, com ela perdemos a capacidade de mostrar e de dizer que amamos. Uma criança não se inibe de dizer que gosta de alguém, mas um adulto tem dificuldade em dizer amor.
Neste fim-de-semana despedi-me pela vigésima sexta vez da minha família. Achava que com o tempo podia ser mais fácil as despedidas, mas cada vez mais me convenço que de facto não é mais fácil, mas sim cada vez mais difícil. As crianças crescem, os gostos mudam, os hábitos mudam, mas o amor parece fortalecer-se.
Neste verão apesar de passarmos pouco tempo juntos, todos os momentos foram intensos e a vontade de aproveitar todo o tempo era enorme. Isto deu asas a que tivéssemos conversas mais profundas e que no fundo nos pudéssemos conhecer melhor. Apesar de eu nunca ter procurado fugir tanto a conversas, de nunca ter desconversado tanto e de ter fugido a teorias e a sermões, a minha família conseguiu pregar-me mais sermões por hora e meter quadrado do que o normal e com isso ficar a conhecer-me melhor.
A minha mana casou nova e tal como a minha mãe casou aos 19. O único homem que conheceu foi o meu cunhado e tem por isso uma visão um pouco básica das coisas.
Para ela alguém solteiro aos 25 anos é de desconfiar.
Com os meus 26 anos quase 27, a minha irmã acha estranho nunca me ter conhecido nenhum namorado. Por isso é normal que este ano lá tenha ganho coragem para pregar a mim e à minha mãe um discurso sobre a necessidade de eu me casar.
Nos outros anos eu achava que me podia safar dizendo que era nova para pensar nisso e que tinha que resolver a minha vida profissional, mas este ano decidi contar a verdade.
Não, eu não vou sair do armário! Comecei logo por garantir que não era lésbica para eles ficarem descansados, depois adiantei caminho contando que isso só tinha a ver com o facto de eu não corresponder aos padrões de beleza actuais e como tal não poder se quer pensar que alguma vez poderia equacionar ter uma vida normal como casar ou ter filhos. Resposta: vai aparecer alguém que aprecie outro tipo de beleza, a interior!
Porra! A isto digo Porra! Eu nem vou comentar, porque aquilo que eles dizem não faz nem sentido.
No outro dia vi uma reportagem sobre pessoas que sofriam de obesidade, e não digo que seja o meu maior problema, e elas diziam que de facto o problema não era arranjar quem estivesse interessado, o problema era arranjar alguém que quisesse assumir um compromisso. Tal como diz um conhecido, as mulheres são todas iguais, por isso ir quando a necessidade aperta vamos para a cama com qualquer uma. Infelizmente eu já sofri isto na pele.
Ora as pessoas normais, não percebem isto, não entendem que pode ser muito difícil que de facto alguém posso ter vergonha de nos apresentar aos amigos ou à família.
Na minha família eles são todos muito normais, bonitos e com as suas belas formas e eu sou assim completamente fora do normal. Feia como a noite e gorda como uma baleia, nome que diga-se de passagem ja tantas vezes me chamaram. Sempre fui descriminada até dentro da família. E porra! nunca ninguém sequer se dignou levar-me a um médico para resolver o problema limitaram se a criticar uma criança como se eu tivesse culpa que o meu metabolismo funcionasse assim.
Quantas vezes na escola os miúdos me insultaram e me bateram! As pessoas não têm noção de como as crianças podem ser más entre elas e, um anjo como eu, teria de sofrer, porque este inferno que é o mundo não é para anjos com beleza interior.
Beleza interior devem ter as freiras. É um insulto alguém me dizer que eu tenho beleza interior. Porra! Eu não quero ter beleza interior. Eu queria ser uma comum mortal com beleza normal e não ter beleza interior. Claro que ninguém pode fazer nada. Nem um milhão de plásticas me davam alguma beleza, mas porra! esqueçam que eu existo, façam de contas que eu sou freira e não me insultem dizendo que eu tenho beleza interior e que posso encontrar alguém que aprecie beleza interior! Poupem-me a estas conversas e ignorem-me.
Quero lá saber que a maioria das miúdas da minha idade se tenham casado e que todas as minhas amigas estejam no caminho de o fazer! Deixem-me em paz e sossego e não me venham com essa conversa que só me martiriza mais do que eu já faço todos os dias.
Sejamos realistas, eu sou apenas a gaja que serve para resolver uns problemas de vez em quando! Ou a gaja que serve pode ser amante de um homem mais velho 20 anos. Poupem-me com esses discursos moralistas e pouco realistas de beleza interior! Já agora, não me obriguem a mudar de grupo de amigos só porque todos eles são comprometidos, porque isso eu não vou fazer. Eu não vou mudar de amigos porque eles se casam e tem filhos, ou netos ou o que quer que seja. Para mim os amigos não são uma necessidade social são uma necessidade de felicidade de cumplicidade e não apenas de conveniência.
Que irritação, estou com eles tão pouco tempo e quando estou com eles tenho que levar com estes disparates. Ora só me falava mais esta hem!
O medo
É assim que me sinto, é assim que vou sentindo meus dias, a vida num vai e vem de tristeza e desespero...uma loucura sana ou insana que me embala como a melodia que me persegue.
O medo mora comigo, e mesmo que eu queira adormecer para a vida ele estará la presente como insónia que não me deixará dormi na paz...Ai essa paz! Essa paz que tanto procuro e que cada vez mais se afasta de mim.
Cada dia uma inquietação, uma desilusão, uma lágrima, um beco, um fim que é só o inico de uma dor, a dor que me adormenta o coração e me sossega a alma.
O medo mora comigo e dorme no mesmo catre que eu, nesse chão duro onde sossego o corpo.
Cada sobressalto é o medo, o medo de ver chegar a madrugada e com ela mais um dia de tormento no vazio.
Vem Medo! Vem! Vem deitar-te a meu lado! Amanhã é mais uma noite na escuridão do dia.
Quem dorme à noite comigo
Deixem falar o poeta maior
PRECE
Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
[...]
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.
Fernando Pessoa em "O Eu Profundo".
Em tudo o que diga, ele antecede os meus passos, ele adianta-se na palavra e disse ja tudo o que posso querer dizer, tudo o que possa pensar.
É como as nossas mentes fossem uma só, mas isso era querer ser maior, querer ser mais alto, e não sou assim, não posso comparar-me a tao grande mente.
Pergunto: será que ele também passou estas penas na vida para escrever assim?
E depois da prece que niguém ouviu...
Bati em tantas portas!
Ninguém me ouviu, ninguém me atendeu.
Não ouviram as minhas preces, a minha dor que gritou alto como as lágrimas que molharam meu rosto e que ninguém viu.
Ninguém quis saber porquê...eu calei a dor...corri meia cidade e ouvi um fado lento. A ninguém consegui explicar o que sinto. A ninguém pude dizer o que de facto passou pela minha cabeça e como é que um dia que podia ser calmo, se tornou num pesadelo.
Não valho a pena...nunca vali a pena para alguém se atravessar por mim, para alguém se arriscar por mim. Por mim ninguém morreria...sou um resto de bolor que ficou numa côdea de pão velho e que ninguém quis.
Subi o elevador e entrei na casa confusa que espelha o minha vida. No meio do caos fui encontrar-te ali serena. Toquei-te e num arrepio senti o teu metal percorrer as minhas veias como uma droga. De súbito uma paz! É bom saber que temos ali tão perto a solução para tudo.
Só tu me esperas. Só tu não me abandonas, só tu sabes como me fazer encontrar a paz. Acaricio lentamente as tuas formas e sinto o teu cheiro metálico. Sabes que não é hora de me possuíres agora, mas sabes que numa dessas noites em que repousas a meu lado eu irei de mansinho deixar que me possuas com todo o teu poder e me leves até ao infinito, até ao paraíso, onde a dor será apenas prazer, o prazer de encontrar a vida eterna, o juízo final.
Dorme por agora. Deixa apenas acariciar-te e sentir a paz que só tu me sabes dar.
Eu também irei dormir, talvez as drogas que me acalmam me tragam um sonho…o sonho de que amanha terei mais um pesadelo pela frente, o pesadelo da realidade do que sou, do que serei e daquilo que de facto nunca terei. O pesadelo daquilo que sonho, mas que se esfuma quando logo julgo alcançar. No fundo toda a minha vida é uma ilusão. Até achar que me podes possuir é uma ilusão, nunca terei coragem de premir o gatilho para que se desperdice uma bala com uma miserável como eu. Não vale a pena. Não valho a pena. Não vale mais a pena lutar por mim…Deixar-me desfalecer e talvez me esfume no ar como os meus desejos.