A idade vai ensinando a dar valor ao amor.
Há medida que vamos envelhecendo vamos aprendendo a dar valor ás pessoas que amamos, aqueles que nos despertam bons sentimentos, que nos fazem sentir felizes. Mas a idade tem um senão, com ela perdemos a capacidade de mostrar e de dizer que amamos. Uma criança não se inibe de dizer que gosta de alguém, mas um adulto tem dificuldade em dizer amor.
Neste fim-de-semana despedi-me pela vigésima sexta vez da minha família. Achava que com o tempo podia ser mais fácil as despedidas, mas cada vez mais me convenço que de facto não é mais fácil, mas sim cada vez mais difícil. As crianças crescem, os gostos mudam, os hábitos mudam, mas o amor parece fortalecer-se.
Neste verão apesar de passarmos pouco tempo juntos, todos os momentos foram intensos e a vontade de aproveitar todo o tempo era enorme. Isto deu asas a que tivéssemos conversas mais profundas e que no fundo nos pudéssemos conhecer melhor. Apesar de eu nunca ter procurado fugir tanto a conversas, de nunca ter desconversado tanto e de ter fugido a teorias e a sermões, a minha família conseguiu pregar-me mais sermões por hora e meter quadrado do que o normal e com isso ficar a conhecer-me melhor.
A minha mana casou nova e tal como a minha mãe casou aos 19. O único homem que conheceu foi o meu cunhado e tem por isso uma visão um pouco básica das coisas.
Para ela alguém solteiro aos 25 anos é de desconfiar.
Com os meus 26 anos quase 27, a minha irmã acha estranho nunca me ter conhecido nenhum namorado. Por isso é normal que este ano lá tenha ganho coragem para pregar a mim e à minha mãe um discurso sobre a necessidade de eu me casar.
Nos outros anos eu achava que me podia safar dizendo que era nova para pensar nisso e que tinha que resolver a minha vida profissional, mas este ano decidi contar a verdade.
Não, eu não vou sair do armário! Comecei logo por garantir que não era lésbica para eles ficarem descansados, depois adiantei caminho contando que isso só tinha a ver com o facto de eu não corresponder aos padrões de beleza actuais e como tal não poder se quer pensar que alguma vez poderia equacionar ter uma vida normal como casar ou ter filhos. Resposta: vai aparecer alguém que aprecie outro tipo de beleza, a interior!
Porra! A isto digo Porra! Eu nem vou comentar, porque aquilo que eles dizem não faz nem sentido.
No outro dia vi uma reportagem sobre pessoas que sofriam de obesidade, e não digo que seja o meu maior problema, e elas diziam que de facto o problema não era arranjar quem estivesse interessado, o problema era arranjar alguém que quisesse assumir um compromisso. Tal como diz um conhecido, as mulheres são todas iguais, por isso ir quando a necessidade aperta vamos para a cama com qualquer uma. Infelizmente eu já sofri isto na pele.
Ora as pessoas normais, não percebem isto, não entendem que pode ser muito difícil que de facto alguém posso ter vergonha de nos apresentar aos amigos ou à família.
Na minha família eles são todos muito normais, bonitos e com as suas belas formas e eu sou assim completamente fora do normal. Feia como a noite e gorda como uma baleia, nome que diga-se de passagem ja tantas vezes me chamaram. Sempre fui descriminada até dentro da família. E porra! nunca ninguém sequer se dignou levar-me a um médico para resolver o problema limitaram se a criticar uma criança como se eu tivesse culpa que o meu metabolismo funcionasse assim.
Quantas vezes na escola os miúdos me insultaram e me bateram! As pessoas não têm noção de como as crianças podem ser más entre elas e, um anjo como eu, teria de sofrer, porque este inferno que é o mundo não é para anjos com beleza interior.
Beleza interior devem ter as freiras. É um insulto alguém me dizer que eu tenho beleza interior. Porra! Eu não quero ter beleza interior. Eu queria ser uma comum mortal com beleza normal e não ter beleza interior. Claro que ninguém pode fazer nada. Nem um milhão de plásticas me davam alguma beleza, mas porra! esqueçam que eu existo, façam de contas que eu sou freira e não me insultem dizendo que eu tenho beleza interior e que posso encontrar alguém que aprecie beleza interior! Poupem-me a estas conversas e ignorem-me.
Quero lá saber que a maioria das miúdas da minha idade se tenham casado e que todas as minhas amigas estejam no caminho de o fazer! Deixem-me em paz e sossego e não me venham com essa conversa que só me martiriza mais do que eu já faço todos os dias.
Sejamos realistas, eu sou apenas a gaja que serve para resolver uns problemas de vez em quando! Ou a gaja que serve pode ser amante de um homem mais velho 20 anos. Poupem-me com esses discursos moralistas e pouco realistas de beleza interior! Já agora, não me obriguem a mudar de grupo de amigos só porque todos eles são comprometidos, porque isso eu não vou fazer. Eu não vou mudar de amigos porque eles se casam e tem filhos, ou netos ou o que quer que seja. Para mim os amigos não são uma necessidade social são uma necessidade de felicidade de cumplicidade e não apenas de conveniência.
Que irritação, estou com eles tão pouco tempo e quando estou com eles tenho que levar com estes disparates. Ora só me falava mais esta hem!
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