As tuas minhas poesias

Tenho tanto sentimento
Que e' frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheco, ao medir-me,
Que tudo isso e' pensamento,
Que nao senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

- Fernando Pessoa

Escrevo aquilo que me passa pela mente com sofreguidão de criança que conta uma novidade.
Mas quando dou por mim e ler Pessoa, vejo que tudo o que disse está escrito.
Não sei que sintonia louca é esta que nos une, apenas sei que nada mais possa dizer que tu já não tenhas emoldurado num poema qualquer com sofreguidão de loucura.
A novidade que me trazes ao ler um novo poema, é apenas uma lembrança do um passado que não sei em que tempo situar. Ficou a lembrança e o sentimento e mais nada posso saber.
Loucura de escrever, de inventar uma vida colorida de cinzentos. Se fosse um desenho seria uma pintura em tinta-da-china, onde apenas se percebe uma folha caída sobe as águas do lago.
Insisto na tua loucura, na minha loucura, criando apenas uma vida paralela a outra onde me perco por caminhos que não quero, onde insisto em pesadelos que não os meus.
Desisti de lutar pelos meus sonhos, por mim, por aquilo que realmente desejo e sou e por aquilo que o destino traçou para mim.
Desvio-me do destino com precisão surpreendente e transformo as oportunidades em muros e não em portas que se abrem para o horizonte. Teimo numa fuga pelo deserto e fujo de um oásis quando o vejo.
Quero voltar a ser eu, a ser o que desejo e não apenas um espectro de alguém que nunca fui.

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa

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