Crónicas: Hoje seríamos felizes

Hoje sei que seríamos felizes.
Lembro-me de ti com o teu olhar de menino. Lembro-me do nosso olhar de meninos. Por de trás da tua voz rouca de adolescente estava o teu olhar de menino.
Olhavas-me de canto e eu olhava-te por trás dos móveis, das portas e fugia sempre que me procuravas.
Nesse dia decidimos esquecer para sempre o nosso amor de criança.
Lembro-me que vinhas sempre tão bem arranjado, com as tuas calças bege e a tua camisa a condizer, e eu, com a minha roupa desajeitada, as minhas velhas calças com flores e a minha t-shirt azul, sempre tão pouca feminina e tão maria-rapaz.
Nesse dia ficaste na ponta da mesa e trocávamos palavras com olhar e com o silêncio que calava todos os comentários que se faziam sobre nós.
Fugia sempre que alguém se dirigia a mim. Inventava mil desculpas e escapulia-me pela porta dos fundos e ficava encostada à parede a ouvir as vozes do outro lado.
E foi ali nesse dia que escolhemos mudar o rumo das nossas vidas, escolhemos mudar o destino, escolhemos a infelicidade.
Foi nesse dia que te perdi, que me perdeste e que os nosso olhares nunca mais se cruzaram.
Hoje podíamos ser felizes.
Hoje os nosso filhos correriam pela casa e iriam enche-la de risos. Vejo-os correrem a abraçar as pernas do avô e vejo o seu olhar de alegria, um olhar que nos abraçaria com amor.
Ele gostava tanto de ti como a um filho. Teríamos sido felizes.
O meu mundo seria tão mais pequeno do que é hoje, mas sei que seria feliz ao teu lado. Sei que seria uma felicidade simples com as coisas simples da vida.
Sei que não teríamos perdido o nosso olhar inocente de meninos, o brilho dos nossos olhos, o brilho do amor.
Hoje não somos felizes.
Escolhemos um caminho que não era o nosso. Não nos escolhemos. Preferimos seguir o rumo do abismo, do medo e da incerteza.
Queria apenas voltar aquele momento em que ficaste ali a olhar para mim. Voltar ao momento em que por um segundo depois de todos partirem, ficámos ali no nosso silêncio e simplesmente abraçar-te, pedir que ficasses, garantir-te que seríamos felizes.
Meu amor, hoje sei que te perdi. Hoje sei que perdi tudo, que perdemos tudo, porque sei que também tu não és feliz.
Se o tempo voltasse atrás sei que hoje seríamos felizes.
Teríamos a nossa casa pequenina ao fundo do quintal dos teus pais, cheia de cor, de luz, de amor.
Eu esperar-te ia ao final do dias sentada na soleira da porta com o nosso mais novo nos braços, e o mais velho, a brincar no pátio, correria a abraçar-te quando te avistasse na curva da estrada.
Contarias à lareira as novidades do dia sentado no banco de madeira, que fizeste do carvalho velho da eira. Os teus filhos olhariam para ti com um ar de admiração. E eu beberia todas as tuas palavras, todos os teus gestos de amor que seriam para mim como fonte de vida.
À noite dormiríamos unos abraçados no nosso leito como membros de um corpo só, sempre juntos, incapazes de nos separamos, gomos de uma mesma laranja, faces do mesmo rosto.
Mas hoje sei que escolhemos outro caminho, um caminho que só nos trouxe dor. Quando tivemos tudo para ser felizes escolhemos apenas a dor.
Nunca mais os nosso olhares se cruzaram meu amor, mas sei que sofres. Sei que tal como eu procuras a felicidade. Sei que no dia que a encontrares também eu a encontrarei, nesse dia descansarei, nesse dia finalmente descansarei a minha busca.
Sei apenas que hoje seríamos felizes.
Esta é a única esperança que tenho, que hoje seríamos felizes.

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