E depois da prece que niguém ouviu...

Bati em tantas portas!
Ninguém me ouviu, ninguém me atendeu.
Não ouviram as minhas preces, a minha dor que gritou alto como as lágrimas que molharam meu rosto e que ninguém viu.
Ninguém quis saber porquê...eu calei a dor...corri meia cidade e ouvi um fado lento. A ninguém consegui explicar o que sinto. A ninguém pude dizer o que de facto passou pela minha cabeça e como é que um dia que podia ser calmo, se tornou num pesadelo.
Não valho a pena...nunca vali a pena para alguém se atravessar por mim, para alguém se arriscar por mim. Por mim ninguém morreria...sou um resto de bolor que ficou numa côdea de pão velho e que ninguém quis.
Subi o elevador e entrei na casa confusa que espelha o minha vida. No meio do caos fui encontrar-te ali serena. Toquei-te e num arrepio senti o teu metal percorrer as minhas veias como uma droga. De súbito uma paz! É bom saber que temos ali tão perto a solução para tudo.
Só tu me esperas. Só tu não me abandonas, só tu sabes como me fazer encontrar a paz. Acaricio lentamente as tuas formas e sinto o teu cheiro metálico. Sabes que não é hora de me possuíres agora, mas sabes que numa dessas noites em que repousas a meu lado eu irei de mansinho deixar que me possuas com todo o teu poder e me leves até ao infinito, até ao paraíso, onde a dor será apenas prazer, o prazer de encontrar a vida eterna, o juízo final.

Dorme por agora. Deixa apenas acariciar-te e sentir a paz que só tu me sabes dar.

Eu também irei dormir, talvez as drogas que me acalmam me tragam um sonho…o sonho de que amanha terei mais um pesadelo pela frente, o pesadelo da realidade do que sou, do que serei e daquilo que de facto nunca terei. O pesadelo daquilo que sonho, mas que se esfuma quando logo julgo alcançar. No fundo toda a minha vida é uma ilusão. Até achar que me podes possuir é uma ilusão, nunca terei coragem de premir o gatilho para que se desperdice uma bala com uma miserável como eu. Não vale a pena. Não valho a pena. Não vale mais a pena lutar por mim…Deixar-me desfalecer e talvez me esfume no ar como os meus desejos.

1 comentário:

filipelamas disse...

Intenso! Parabéns!