Madrugada.
A luz entra pela vida com uma timidez que encanta.
Ao longe, num azul gelo, as serras recortam o horizonte pintado em tons rosáceos.
As páginas do livro voltam-se com a brisa do vento matinal desviando a minha atenção do horizonte.
Os melros laboram na sua busca madrugadora por comida voando entre as árvores do jardim. E os pardais, num frenesim, refastelam-se com as peras deliciosas no quintal.
Começa mais um dia igual a todos os outros dias de verão.
Os ciclos da vida mantêm o seu rumo. Os dias nascem e morrem com exactidão, tal como nós seres humanos morremos e nascemos, mas com uma incerteza do que será o amanhã. Uma agonia...
O ciclo da vida.
Os dias correm num vagar de pregão serrano...num eco que vai e volta. Dooooor!
Os primeiros raios de sol despontam nas árvores do pinhal.
Os telhados despertam para as suas cores e o branco do casario brilha agora.
Na vila agitam-se as gentes num corrupio. Lenta dor agora...
Na aldeia os pregões das carpideiras: é vida! Cada um tem o que merece! Uns vão e outros ficam! A sorte e só para alguns! Cá se fazem cá se pagam!
Movo-me sobre o banco e ergo minha cabeça para um olhar indiscreto sobre o vizinho que desce vagarosamente a escada. Bom dia ti António!
Num repente um raio de sol bate no meu rosto obrigando me a um serrar de olhos. O sol! Bom dia meu amigo!
O pessegueiro, agora como que iluminado, reina no quintal entre todas as outras.
Encosto-me agora e rendo-me ao cansaço.
Agora que vistes durmo nos teus braços quentes.
Agora que me deste a luz posso sonhar com o paraíso.
Lá em baixo na vila começa a vida e eu adormeço para ela e procuro em ti a paz.
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