Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!
Florbela Espanca
Para os que se preocupam ou fingem preocupar comigo, não temais senhores, porque a dor será a minha companheira, outra igual eu não sei encontrar.
E se no caminho me assaltar algum temor de a perder, logo encontrarei a tristeza que é luz do meu olhar.
Mansamente te aninhaste a meu lado e eu, absorta na minha solidão, nem dei por ti.
Os meus cabelos se cobriram de gotas minúsculas que se tornaram em lágrimas sem choro, apenas senti o cheiro doce da terra molhada. E tu, que chegaste lentamente para roubar meus pensamentos, quando me tocastes sentiste apenas o frio das rochas e achaste que eu tinha morrido. Lavaste meu rosto manchado pela dor e cobriste minha cabeça com um manto cristalino. E o céu chorou por mim sem eu ter partido.
Agora que sinto o frio nos ossos posso jurar que morri. As minhas pálpebras cerradas e as minhas mãos unidas contra o peito já não as sinto, apenas o oiço. Oiço essa maldição que persegue num bater incessante que não sai do meu peito...
Adormecer...adormecer para não mais o ouvir...
Quero não mais o ouvir!
Cansei ouvir esse bater...
Se cada dia é igual no vazio, porque persisto numa fé? Nessa fé de que o amanhã será igual.
Quando me perguntam se não há nada de novo, nem sei mais o que responder. Quando se dignam ouvir-me nem sei do que falar, porque nada mais tenho a dizer que os meus olhos não digam em lágrimas.
Só a chuva me entende no silêncio. Só a chuva me abraça e me consola as dores.
Gritos mudos e desesperados no silêncio da chuva...os meus gritos mudos por ti, e não vens levar-me para o Teu reino onde eu possa Te abraçar e finalmente adormecer nos Teus braços Senhor!
Sem comentários:
Enviar um comentário