Teatro: a velha e o seu amor

Podemos inventar amor para ser felizes, sejamos actores neste teatro onde encenamos toda a nossa vida.
Inventemos uma felicidade, um amor, uma tristeza ou até uma dor e se o poeta é um fingidor, então vamos fingir uma loucura.

Primeiro Acto
Na casa do cimo da aldeia, num dia tempestuoso a velha louca trauteia uma cantilena a um amor que ficou numa vida passada e o qual espera desde então:

Sentei-me na soleira da porta da casa e esperei por ti.
Perdi a noção ao tempo em estou aqui.
Nas paredes que me recordo com sua pedra nova e limpa, vejo agora o negro.
Os musgos cresceram no colmo do telhado, por onde as pingas da chuva entram confundindo-se com as minhas lágrimas.
Dentro o pó tomou conta dos móveis, tomou conta do coração perro e enferrujado pela dor.
Meus olhos fixaram-se no horizonte e aí procuro distinguir a tua silhueta, mas não vejo...
Por vezes no meio da loucura olho a miragem de ti, mas não és...
Passas com as caravanas dos saltimbancos que subiram à aldeia para entreter o povo, mas não ficas...
Aqui meu corpo imóvel e inerte não vive desde o dia em que partiste, porque nunca exististe...
Juraste teu amor eterno e eternamente aqui estou, porque nunca vieste...
Desde o momento em que abri meus olhos para esta vida espero por ti, porque nunca te tive meu amor?

Fim de cena
A velha morta na soleira da porta e o povo passando na rua sem reparar que ela há muito que se deixou de ouvir.
Ao longe no horizonte distingue-se a silhueta de um homem.

Fim do Primeiro Acto

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