O ser humano é um ser incrível. É um ser com muitas facetas, capaz de interpretar diferentes papeis, de ter diferentes atitudes mesmo em situações semelhantes ou iguais.Tendemos a surpreendermo-nos com as nossas próprias atitudes, mas também com as atitudes daqueles que melhor conhecemos ou que julgamos realmente conhecer.
Das pessoas que conheci ao longo da minha vida todas me surpreenderam com as suas atitudes, mas raros foram aqueles que o fizeram de forma positiva. Esses raros seres humanos foram alguns dos amigos que ainda mantenho. Não é justo que conte aqui com a família, porque tal como diz o outro "Podemos escolher os amigos, mas não podemos escolher a família".
Nunca fui de cultivar inimigos, mas também nunca fui de ter muitos amigos.
Posso dizer que ao longo do tempo fui cultivando algumas boas amizades, pessoas que foram ficando, que me deixaram ficar, que me convidaram e convidam a entrar nas suas vidas. Nada mais aprazível do que sermos convidados para a vida de alguém.
Eu tenho a mania de necessidade de reconhecimento público, tenho a mania de ser egocêntrica, no fundo de ter que ter a atenção de todos. Talvez seja apenas um trauma de infância, ou para quem acredita em reencarnação, um trauma de uma vida passada.
Fico magoada quando algum amigo me decepciona, mas sou capaz de esquecer e seguir em frente. Apesar do meu orgulho, da minha teimosia, sou até capaz de dar uma centena de oportunidades a essa pessoa ou até de reconhecer que talvez eu não estivesse num dia bom, que talvez fosse apenas um mal entendido.
Não guardo rancores e procuro sempre esquecer os maus momentos, mas quando estou num dia mau posso ser muito má e injusta, simplesmente cortar a direito e dizer ou fazer o que vier à cabeça.
Nos últimos tempos afastei-me das pessoas apenas e só para não as consumir com o meu mau humor, mas agora que estou a atentar recuperar os laços e a tentar mudar de humores para ver o mundo com uma nova perspectiva, reconheço que fui cega a muita coisa, que fui um anjinho e perdoei certas atitudes que talvez não devesse permitir. Num período de mudança estamos sempre mais susceptíveis, e por incrível que pareça, ficamos mais permeáveis e coisas grandes e menos tolerantes a coisas pequenas, aquilo que vulgarmente chamamos tempestades num copo de água.
No período de mudança que estou a atravessar acho que me deixei vencer por essa susceptibilidade e deixei que algumas pessoas me induzissem no erro, tomassem vantagem e me iludissem com o ouro dos tolos.
Talvez deva começar a abrir os olhos, a não admitir algumas coisas e a ser mais firme em outras. Talvez nem todos devam ter tantas oportunidades como as que tiveram. Talvez eu deva ser menos anjinho e perceber que existem pessoas que só se querem aproveitar da minha ingenuidade e da minha bondade, levando-me a seguir um caminho que é bom apenas para eles e sem contrapartidas para mim, fazendo-me impor regras que eu nunca seguiria, e obrigando-me a ter atitudes que nunca teria.
Ao longo da minha vida aprendi a não ser calculista, a não fazer da vida um jogo de xadrez onde dispomos as peças ao nosso bel-prazer para atingir um objectivo defino. Como as pessoas conseguem ser tão sacanas ao ponto de passar por cima dos outros, dos seus sentimentos e dos seus sonhos? Como é possível que o ser humano um ser social e racional, consiga tomar atitudes que em muito se assemelham aos animais, onde o único instinto é o da sobrevivência? E não me digam que a desculpa é a de que o mundo é uma selva! O mundo era uma selva até o homem se tornar num ser racional que pensa, cria e transforma. Mas o homem não tem capacidade para criar com exactidão com perfeição, com equilíbrio. Enquanto não deixarmos de ser tão egoístas, de ser tão básicos, tão materialistas, tão agarrados a prazeres terrenos que nada têm a ver com a inteligência, não deixaremos de ser animais.
Mesmo pessoas que se consideram inteligentes, valorizam coisas tão terrenas que permitam-me que as considere apenas bestas. Prefiro ser desprovida de pouca cultura, ser simples, ser um pastor que olha para as montanhas e valoriza todos os dias a sua beleza, porque sabe que o seu sustento está a ali e que se não as proteger não terá o seu futuro e o dos seus filhos garantido. Preferia ser pobre, mas ser feliz, ter amor, ter paz e harmonia. Preferia viver no meio das rochas que oram todos os dias e serenamente cumprem o seu papel sem se lamuriar ou irar contra a sua natureza. Isto é apenas uma questão de sabedoria.
A inteligência nada tem a ver sabedoria. O homem não caminha para a simplicidade da sabedoria para poder chegar à felicidade, apenas caminha por um caminho tortuoso como a inteligência para chegar à desumanidade.
Começo a ficar cansada destes jogos. Nunca gostei de jogar e como nem as regras deste jogo sem lei sei, prefiro mesmo não entrar nele, mas todos os dias a vida me vai atirando com lama para a cara. A vida no fundo é assim é um jogo.
Perdemos e ganhamos e por vezes perdemos pessoas que estimamos, apenas só porque não queremos entrar no jogo onde sabemos que vamos perder-nos.
Uma nova perspectiva ou apenas uma brisa de razão para a minha pobre mente desprovida de inteligência para alguns e tão nobre para outros? Num desejo apenas peço:
Que a razão esteja do lado dos fracos e dos loucos que se deixam levar por mentes onde não reina a inteligência, mas apenas a maldade e a esperteza dos ímpios.
Que a sabedoria finalmente se atravesse no meu caminho para eu deixar de tomar as decisões que me deixam mais longe do meu caminho para a felicidade.
Que o coração não se deixe guiar pelo vício da maldade e do ódio.
Afasta-me daqueles que me deixam ficar apenas cicatrizes na alma e no coração, porque me fazem passar por louca, por tola ou imbecil, por uma coitadinha desprovida de razão e capacidade de decisão.
E quando a minha cabeça cansada quiser tombar perante a vergonha ou a humilhação, que se levante na certeza de que neste jogo que é a vida, eu não serei perdedora desta guerra.
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