Todos os dias a vida é uma questão de sobrevivência. Sobrevivência significa apenas adaptarmo-nos.
Quando nos levantamos de manha adaptamo-nos ao tempo que faz lá fora, vestimos uma camisola ou uma camisa mediante o frio ou o calor, porque se não o fizermos apanhamos um resfriado ou morremos de calor.
Quando mudamos de casa adaptamo-nos a uma nova casa, a novos vizinhos, a um novo bairro, e quando não nos adaptamos simplesmente mudamos de casa.
Quando mudamos de trabalho ou nos adaptamos ou resignamos o cargo ou somos despedidos.
Quando nos casamos ou nos adaptamos ao companheiro ou divorciamo-nos.
No fundo tudo gira em volta disso mesmo. Não adiantam princípios, sonhos ou desejos, tudo deve ser devidamente adaptado ás situações que nos rodeiam.
Acabamos sempre por nunca conseguir fazer o que sonhamos. E mesmo aqueles que o fazem, conseguiram-no à custa de saberem adaptar os meios para conseguirem realizar os seus sonhos.
A sobrevivência resume-se a isto desde à milhões de anos atrás.
Vamos levando cada dia com todas as surpresas que surgem e vamos respondendo com o nosso instinto de sobrevivência, e por aí podemos ser tudo o que quisermos.
ás vezes acho que tudo isto é apenas uma luta sem gloria. O que importa a sobrevivência? O que importa sobreviver mais um dia?
Somos ser racionais e para nós a vida não devia ser um caso de sobrevivência, deveria ser algo mais, deveria ser uma questão de alcançar algo mais, de buscar algo absolutamente extraordinário, mas gastamos as nossas energias na sobrevivência do dia a dia. Tornamo-nos escravos de um ideal social.
No final acabamos assim como uma aragem que passou, um pó, apenas um pó que se transforma em pó e que nada adiantou para si e par aos outros.
Somos apenas seres de uma natureza que tudo governa e de quem dependemos. A todo o momento poderemos deixar de conseguir sobreviver como seres e passaremos apenas a uma continuidade de matéria.
"Aqui, deposta enfim a minha imagem,/ Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,/ No interior das coisas canto nua./ Aqui livre sou eu - eco da lua/ E dos jardins, os gestos recebidos/ E o tumulto dos gestos pressentidos,/ Aqui sou eu em tudo quanto amei." Sophia de Mello Breyner
Sobrevivência
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