Toada do engano


Oiço-te chegar lentamente. Passos vagarosos, respirar lento. Pousas com cuidado a chave e atiras o peso do teu corpo para a cadeira. Debruças-te e apoias a cabeça nas tuas mãos cansadas impregnadas com esse cheiro.
Ficas ali chorando baixinho para não te ouvir.
Choras ali a meu lado no silêncio da noite.
Eu, ali deitada sobre a cama fria, rezo para que ganhes coragem de te deitares a meu lado.
Queria abraçar-te, garantir-te um porto seguro, um perdão e um arrependimento que não te posso dar.
A minha fraqueza é a tua força.
Saber que estarás ali a meu lado e serás a minha cidadela, o meu escudo e a minha fortaleza.
Sinto um pulsar forte do coração que se aperta num desespero.
Tardas e eu tardo em esquecer.
Não virás...não vens e calmamente levantas-te e sais.
Não oiço bater a porta e sei que te deitas sobre o sofá.
A coragem de enfrentares os teus medos e as tuas fraquezas nunca foi o teu forte.
Deixas no ar o cheiro doce do perfume.
Ainda hoje o sinto, mesmo tanto tempo depois de partires ainda o sinto na cadeira onde sempre te sentavas e onde nunca ganhaste coragem para te deitares ao meu lado.

Não ouvias as minhas lágrimas, apenas sentias o minha dor nas palavras amargas que te deixava quando saía pela manhã.


A verdade sabia-me ao fel que ainda hoje sinto dentro de mim. E o engano era uma luz nas noites escuras que passei sozinha, deitada, esperando por ti, derramando lágrimas que nunca viste.
Só o teu olhar fugidio e o teu silêncio denunciavam a tua culpa, a minha culpa, a nossa culpa.
O teu toque, que antes era para mim fogo, era agora nojo e asco e sempre que me procuravas a minha pele morria como se de um ácido se tratasse, consumindo tudo à sua passagem. Consumiste o meu amor, e agora existe apenas ódio e dor.

Partiste numa madrugada fria, como todas essas em que chegavas com esse perfume caro de mulher.
Nunca te dei o que querias ou nunca nos demos um ao outro, ou o que tínhamos nunca nos bastou. Nunca percebi e nunca procurei perceber, porque agora tudo era apenas nojo para mim.
Deixámos de nos ver e deixei de querer cruzar-me com os caminhos que nos habituámos a percorrer de braço dado. Quis partir para longe, mas faltou a força que eras tu.
Se achei algum dia que soube o que era o amor, agora sei que era apenas uma nota de um acordeão desafinado que numa ilusão de menina ouvi como canção de embalar.

Um engano, foste um engano e eu fui uma porta sem saída por onde entraste e saíste sem saber o que de facto existia naquela divisão da tua vida.
Encerraste essa porta para sempre e eu...eu encerrei para sempre o meu coração.

Estranha Forma de Vida


Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.

Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes aonde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.
Alfredo Duarte/Amália Rodrigues