Inverno


Como gosto de dias assim. Gosto de sentir esse fresco cortante e seco.
Sente-se o cheiro a Inverno.
Casacos quentes. Uhm! mantas e pantufas fofinhas! Que delicia!
A lareia! As castanhas assadas!
Tudo deliciosamente temperado com esse frio de inverno!

Que bom que chegaste! Tinha tantas saudades!
Consigo sentir o teu toque nas minhas mãos frias, na minha face que dói quando a beijas com esse teu doce beijo frio. Meu inverno amado.
Tao doce e tão agreste. Um bem e um mal e cabenos manter esse equilibrio para te amar.

Grito da mulher ao marido monstro (diálogo final)


No dia do teu funeral encerrei o capítulo mais negro de 30 anos da minha vida.
Durante anos desejei a tua morte. Desejei alguma misericórdia do Todo Poderoso que tudo cria e tudo transforma. Mas descobri que apenas a nossa vontade consegue mudar a nossa vida.
Durante anos temi o momento em que entravas em casa.

Tremia só de pensar que abririas a porta. Pensava quanto tempo mais aguentaria aquilo, quanto tempo duraria até tu conseguires acabar com toda esta dor. Sonhava com o dia em que finalmente fazias o que todos os dias ameaçavas fazer quando berravas: eu mato-te!

Transformei o meu coração numa pedra desde o dia em que levei a primeira bofetada.
Não te reconheci. Não me reconheci. Morri. Morreste. Morremos. Mataste-me sim! Nunca percebeste que realmente eu já estava morta. Mataste o nosso amor naquele instante, naquele grito. Naquela fúria os nossos filhos mudaram o olhar, perderam o seu sorriso.
Ainda hoje, mesmo depois da tua morte, vejo o seu olhar triste. Ainda hoje consegui ver a dor.
Sabes o que é ver a dor?
Não, não podes saber, não podes saber o que nunca quiseste ver. Para ti a dor era apenas prazer. Era o prazer de ver alguém ser subjugado à tua vontade.
Para ti a tua família era como um objecto que se usa apenas para nosso bel-prazer.
Usavas os teus filhos como joguetes. Usavas-me como uma empregada, como uma puta, Tratavas-me como um nada.
E eu morri. Deixei de ser mulher e transformei-me naquilo que tu quiseste, num objecto.

Sempre que levantavas a mão para bateres os teus filhos o meu instinto de mãe, esse instinto que foi a única coisa que nunca perdi, atirava-me para a frente dessa mão. E tu batias sem parar e nem o sangue te fazia deter, nem os gritos de choro dos teus filhos te faziam acordar do transe em que parecias estar.
Um monstro! Fizeste despertar o monstro que escondias.

Sempre foste um medroso, fugias daqueles que eram mais fortes que tu, e batias naqueles que podias á calada.

Quando nos conhecemos eras tão amoroso comigo e conquistaste me com esse olhar de galã de cinema.
Ganharias o Óscar de melhor actor. Fingido!
Para ti os de fora eram sempre melhores. Os teus filhos eram vadios, eram malandros e eu era uma puta. Agarravas-me como se eu fosse uma mulher da rua. Nunca me deste prazer nem no primeiro dia em que fizemos amor. Nunca me deste um beijo com amor.
Acho que nunca soube o que era ser amada. Parecias um animal e eu era apenas uma vítima da tua fúria, do teu instinto na busca de prazer.

Calei-me. Só as marcas do corpo falavam e nunca deixei de te defender perante os outros. Tola!

A vergonha fazia-me aguentar tudo. Chorei tantas vezes. Quando os nossos filhos saíram de casa chorava noite e dia. A tua filha tantas vezes me disse para te deixar.

No dia em que o teu filho se virou contra ti acordaste. O meu coração caiu ali. O medo fez-me tremer as pernas como nunca tinha sentido, nem quando me batias desalmadamente. Pensei que se matassem, mas recuaste e ele ameaçou-te de morte. Medroso!

Nunca mais me tocaste, mas também nunca mais encaraste nenhum de nós. Não me dirigias a palavra. Desde aí começaste a definhar. Entregaste te aos vícios. Fumavas 2 maços de tabaco por dia. Nunca mais dormimos na mesma cama.

Nojo!

Sentia um nojo por ti, mas um medo. Trancava a porta do quarto com medo que me matasses de noite.

Um dia pegaste na caçadeira, colocaste dois cartuchos e disseste: um dia destes vão ver o que vos espera. Vão pagar! E riste com esse sorriso matreiro.

O meu coração tremeu.

Quando já não aguentava mais, decidi acabar com tudo, tomei todos compridos que tinha no armário e deitei-me na cama. Fechei a porta e adormeci.

Salvou-me o teu filho. Nem me foste ver ao hospital. Nunca pensei que fosses tão mau. No fundo ainda chava que sentias alguma coisa que não apenas essa indiferença.

Nunca mais voltei a casa.

Hoje estou aqui. Hoje voltei a esta casa e estou aqui para te dizer que devias ter morrido há mais tempo. Mas nunca mais quero voltar a este lugar. Ainda sinto o teu ódio impregnado nestas paredes.

Foste um demónio! Agora partiste para o inferno.

Nem depois de morto deixas de atormentar os meus pensamentos, fizeste-me tua prisioneira.

Com dor digo-te que nunca serei livre, nem no dia do teu funeral.

Eu queria fazer uma homenagem a todas as mulheres que sofrem de violência doméstica.

Já ouvi algumas histórias, mas ainda assim sinto uma dificuldade enorme de entrar na mente de alguém que sofre uma destas situações.

A coragem de nos libertarmos de uma destas situações é de louvar.

Coragem para todas essas mulheres, coragem para se libertarem deste sofrimento.

Mas queria explorar mais o tema de uma abordagem em duas frentes: vitima e agressor.

A tentativa de entrar na cabeça do agressor é impossivel para mim. Tenho de explorar mais esse lado negro. E deposi talvez conseguima algo melhor e diferente um dialogo a duas mãos e não tanto os monólogos que tanto gosto de fazer.

Nocturnos


Sinto uma vibração por todas as minhas células. Invade o meu corpo esta sensação estranha que me traz uma calma infinita...
Transporta-me para uma outra dimensão, para um outro local onde não existe espaço ou tempo e onde me sinto simplesmente a flutuar.
A música conduz os meus passos, conduz -me por um mundo onde existe uma vazio e uma luz. Aqui eu não existo, existe apenas a melodia e esta sensação de bem estar...
Talvez isto seja o céu. Talvez Chopin tenha encontrado uma forma de nos transportar num transe para a outra dimensão que pode ser o céu.
Este nocturno é das poucas coisas que me transmitem um prazer tal que me faz entrar num transe.
Se isto fosse uma técnica de hipnose resultaria perfeitamente comigo.
Que bom recordar Chopin.

Memórias

Lembras-me uma marcha de Lisboa
Num desfile singular,
Quem disse
Que há horas e momentos p'ra se amar

Lembras-me uma enchente de maré
Com uma calma matinal
Quem foi
quem disse
Que o mar dos olhos também sabe a sal

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar

Queria viver tudo numa noite
sem perder a procurar
O tempo, ou o espaço
Que é indiferente p'ra poder sonhar

Quem foi que provocou vontades
e atiçou as tempestades
e amarrou o barco ao cais
Quem foi, que matou o desejo
E arrancou o lábio ao beijo
E amainou os vendavais
...
devagar

Luís Represas/João Gil

Lembrança de um passado que me faz sorrir.

Lembrar com carinho o passado, lembrar com carinho tudo.
Estes dias fizeram reflectir sobre a dor, a dor que sentimos quando perdemos alguém que amamos, alguém que é o nosso mundo e de quem dependemos até para respirar.
Redescobri que o tempo cura tudo. Talvez não seja uma cura, é uma questão de perspectiva.
À medida que nos afastamos de um momento de dor, vamos moldando a perspectiva da situação.
A dor passa a ser saudade e. no fim. tudo passa a ser amor, até os momentos de raiva ou de amargura com o outro. As lembranças que ficam são apenas amor. É maravilhoso como o tempo funciona como um filtro, retém apenas o que realmente importa: a alegria e o amor.
Isto é uma descoberta maravilhosa.
A sabedoria dos velhos é isto mesmo, com o tempo eles aprendem a dar valor ao essencial.

Sabedoria á o que peço todos os dias.

As coisas simples da vida

Agora que olho a chuva lá fora e oiço o vento rugir, sinto uma paz, como uma onde choque me trespassasse o corpo e deixa-se em todas as minhas células um bem estar que quase me deixa em transe.
sentir o prazer das pequenas coisas da vida. A vida é cheia de pequenos momentos que mudam o curso, as decisões, as atitudes, os sonhos, que simplesmente guiam o nosso inconsciente sem entendermos o que nos motiva.
A felicidade é assim, são pequenos momentos que nos fazem sentir bem, são momentos que nos fazem derramar uma lágrima de alegria, são momentos que nos deixam num transe inexplicável.

Por vezes não entendemos como podemos ser felizes, não percebemos o que nos deixará felizes e buscamos a felicidade em algo maior, buscamos num concretizar de sonhos e de metas que apenas nos levam a um beco sem saída.
Apostamos em ser felizes por força do ter e não do ser ou do sentir.

Por mim entendo que a felicidade é um estado de espírito interior. É algo tão egoísta e solitário como um instinto de sobrevivência. Só seremos felizes se soubermos ser felizes sozinhos, ou seja, se soubermos conviver connosco, com os nosso defeitos, com o que temo sde melhor e de pior.
Encontrar-me, buscar no que sou agora no meu presente, nas pequenas coisas do que sou e do que tenho a felicidade.
Cada gesto, cada olhar, cada toque, cada nota de música tem o seu encanto, tem a sua energia positiva, essa energia que tenho de conservar, para me tornar imune ao estado de melancolia que só me deixa essa dor, esse vazio.
Encher a minha vida de pequenas coisas positivas, que me fazem sorrir. Coisas parvas que me fazem sorrir, como uma flor, uma borboleta, um raio de sol por entre as nuvens, ou uma musica que me faz dançar.

Ter prazer num chá com sabor quente da canela ou com o cheiro forte do café ao acordar.
Chorar de felicidade num abraço a alguém que amamos.
Tudo isto é tornar a nossa vida repleta de felicidade com pequenas coisas. Sorrir, principalmente sorrir com tudo isto sem temer que o mundo nos ache loucos.

Agora só quero sorrir.
Quero apenas sentir o equilíbrio dentro de mim, esse equilíbrio que me leva á felicidade nas pequenas coisas do meu mundo.