Grito da mulher ao marido monstro (diálogo final)


No dia do teu funeral encerrei o capítulo mais negro de 30 anos da minha vida.
Durante anos desejei a tua morte. Desejei alguma misericórdia do Todo Poderoso que tudo cria e tudo transforma. Mas descobri que apenas a nossa vontade consegue mudar a nossa vida.
Durante anos temi o momento em que entravas em casa.

Tremia só de pensar que abririas a porta. Pensava quanto tempo mais aguentaria aquilo, quanto tempo duraria até tu conseguires acabar com toda esta dor. Sonhava com o dia em que finalmente fazias o que todos os dias ameaçavas fazer quando berravas: eu mato-te!

Transformei o meu coração numa pedra desde o dia em que levei a primeira bofetada.
Não te reconheci. Não me reconheci. Morri. Morreste. Morremos. Mataste-me sim! Nunca percebeste que realmente eu já estava morta. Mataste o nosso amor naquele instante, naquele grito. Naquela fúria os nossos filhos mudaram o olhar, perderam o seu sorriso.
Ainda hoje, mesmo depois da tua morte, vejo o seu olhar triste. Ainda hoje consegui ver a dor.
Sabes o que é ver a dor?
Não, não podes saber, não podes saber o que nunca quiseste ver. Para ti a dor era apenas prazer. Era o prazer de ver alguém ser subjugado à tua vontade.
Para ti a tua família era como um objecto que se usa apenas para nosso bel-prazer.
Usavas os teus filhos como joguetes. Usavas-me como uma empregada, como uma puta, Tratavas-me como um nada.
E eu morri. Deixei de ser mulher e transformei-me naquilo que tu quiseste, num objecto.

Sempre que levantavas a mão para bateres os teus filhos o meu instinto de mãe, esse instinto que foi a única coisa que nunca perdi, atirava-me para a frente dessa mão. E tu batias sem parar e nem o sangue te fazia deter, nem os gritos de choro dos teus filhos te faziam acordar do transe em que parecias estar.
Um monstro! Fizeste despertar o monstro que escondias.

Sempre foste um medroso, fugias daqueles que eram mais fortes que tu, e batias naqueles que podias á calada.

Quando nos conhecemos eras tão amoroso comigo e conquistaste me com esse olhar de galã de cinema.
Ganharias o Óscar de melhor actor. Fingido!
Para ti os de fora eram sempre melhores. Os teus filhos eram vadios, eram malandros e eu era uma puta. Agarravas-me como se eu fosse uma mulher da rua. Nunca me deste prazer nem no primeiro dia em que fizemos amor. Nunca me deste um beijo com amor.
Acho que nunca soube o que era ser amada. Parecias um animal e eu era apenas uma vítima da tua fúria, do teu instinto na busca de prazer.

Calei-me. Só as marcas do corpo falavam e nunca deixei de te defender perante os outros. Tola!

A vergonha fazia-me aguentar tudo. Chorei tantas vezes. Quando os nossos filhos saíram de casa chorava noite e dia. A tua filha tantas vezes me disse para te deixar.

No dia em que o teu filho se virou contra ti acordaste. O meu coração caiu ali. O medo fez-me tremer as pernas como nunca tinha sentido, nem quando me batias desalmadamente. Pensei que se matassem, mas recuaste e ele ameaçou-te de morte. Medroso!

Nunca mais me tocaste, mas também nunca mais encaraste nenhum de nós. Não me dirigias a palavra. Desde aí começaste a definhar. Entregaste te aos vícios. Fumavas 2 maços de tabaco por dia. Nunca mais dormimos na mesma cama.

Nojo!

Sentia um nojo por ti, mas um medo. Trancava a porta do quarto com medo que me matasses de noite.

Um dia pegaste na caçadeira, colocaste dois cartuchos e disseste: um dia destes vão ver o que vos espera. Vão pagar! E riste com esse sorriso matreiro.

O meu coração tremeu.

Quando já não aguentava mais, decidi acabar com tudo, tomei todos compridos que tinha no armário e deitei-me na cama. Fechei a porta e adormeci.

Salvou-me o teu filho. Nem me foste ver ao hospital. Nunca pensei que fosses tão mau. No fundo ainda chava que sentias alguma coisa que não apenas essa indiferença.

Nunca mais voltei a casa.

Hoje estou aqui. Hoje voltei a esta casa e estou aqui para te dizer que devias ter morrido há mais tempo. Mas nunca mais quero voltar a este lugar. Ainda sinto o teu ódio impregnado nestas paredes.

Foste um demónio! Agora partiste para o inferno.

Nem depois de morto deixas de atormentar os meus pensamentos, fizeste-me tua prisioneira.

Com dor digo-te que nunca serei livre, nem no dia do teu funeral.

Eu queria fazer uma homenagem a todas as mulheres que sofrem de violência doméstica.

Já ouvi algumas histórias, mas ainda assim sinto uma dificuldade enorme de entrar na mente de alguém que sofre uma destas situações.

A coragem de nos libertarmos de uma destas situações é de louvar.

Coragem para todas essas mulheres, coragem para se libertarem deste sofrimento.

Mas queria explorar mais o tema de uma abordagem em duas frentes: vitima e agressor.

A tentativa de entrar na cabeça do agressor é impossivel para mim. Tenho de explorar mais esse lado negro. E deposi talvez conseguima algo melhor e diferente um dialogo a duas mãos e não tanto os monólogos que tanto gosto de fazer.

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