Eram uns dias felizes.
Acordávamos pela manhã e sorriamos com a ideia de ir para a neve brincar. Saltávamos da cama quente para o frio, assim sem mais, destemidos.
Éramos crianças e tudo para nós era brincadeira. CaíAmos e levantávamo-nos de um salto.
As nossas mãos tiritavam de frio e os pais gritavam connosco e riamos, apenas riamos quando acertávamos com uma bola de neve em alguém.
E a avó arreliada corria atrás de nós com a vassoura e os nossos risos ouviam-se por todo o jardim.
A vida era simples. Para nós não existia tristeza apenas amor e alegria. Diversão...tudo era diversão.
Depois crescemos e ficamos assim: chatos, aborrecidos de mal com a vida, com o mundo de mal connosco.
Agora não rimos. Não há gargalhadas no jardim. Apenas silêncio. O único barulho que se ouve é o latir do cão e a chuva que cai das caleiras partidas.
Não há neve. Há as árvores do jardim e os pássaros. Não há o barulho da carrinha do pai a chegar, porque ele não chega, não vai chegar mais e a carrinha também não vai voltar mais.
Eu queria dizer que não há mais nada, mas sim há, há alguém que resiste firme como uma fortaleza. Nada a parece abalar, mas no entanto é tão frágil como uma flor-de-lis. Tanto amor dentro dela e como é linda! É o jardim da casa. A vida parte dela e sem ela nada existia.
As suas mãos ásperas como pedras de fortaleza que o tempo, a intempérie e as lutas moldaram.
A sua voz sempre enche de alegria o coração, essa voz melodiosa que embala num ritmo de encanto.
Ensinou-nos a ser mulheres. Ensinou-nos a ser gente e não gentinha. É senhora de um coração extraordinário e esse será o seu legado.
Se existe um ídolo é ela. É tudo que eu queria ser alguma vez.
Sem ela nada existe, existiu ou existirá para mim.
Aqui, longe de tudo, posso ouvir a sua voz, as canções que canta na cozinha, as lágrimas num momento de fraqueza e ali por entre os tachos e as panelas e as couves, posso ouvir a canção que vai cantando na sua voz de rouxinol.
E eu lentamente pé ante pé vou por trás dela e num momento de distracção faço lhe cócegas e ela grita e eu rio e fujo num pulo pela cozinha e ela ri agora. Ouço o seu riso...e chora a rir! Até isso ela me ensinou: a chorar a rir.
Cada dia acho que estou mais parecida com ela, mesmo depois de termos escolhido caminhos de vida completamente diferentes, sei que cada dia estou mais parecida com ela.
Agora que deixo a casa lá longe si to apenas saudade, a saudade de criança. Do riso, da música, do carinho das brincadeiras e sei que devíamos rir mais.
Somos uma família feliz e mesmo estando longe de quem mais amamos somos felizes, porque estamos sempre juntos no coração, no pensamento, estamos sempre juntos, porque ela nos ligou a todos a nossa querida Mãe.
"Aqui, deposta enfim a minha imagem,/ Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,/ No interior das coisas canto nua./ Aqui livre sou eu - eco da lua/ E dos jardins, os gestos recebidos/ E o tumulto dos gestos pressentidos,/ Aqui sou eu em tudo quanto amei." Sophia de Mello Breyner
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Deus escreve direito
Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas no espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas no espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento
Sophia de Mello Breyner Andersen
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