O tempo


Existem duas coisas que o tempo não ajuda a esquecer: as pessoas que amamos realmente e os erros que cometemos.
Quanto mais nos afastamos, maior parece ser o amor que sentimos por alguém que perdemos. Parece até estarmos mais próximos dessa pessoa. Parece que esquecemos piores momentos para recordarmos bons momentos.
Com os erros fazemos o contrário. Aquilo que nos pareceu um bom momento na altura, uma boa escolha, a escolha possível o caminho certo, passa a ser um erro de todo o tamanho, passa a ser uma cruz, um Karma que nos persegue. E quando menos esperamos lá vem essa lembrança e gritamos, gritamos um desses gritos mudos dentro de nós, dizemos dois ou três palavrões para afastarmos o pensamento e voltamos á rotina.
A vidinha é assim, rotina e descobertas, risos e lágrimas, saudades ou arrependimentos. Cruzam-se todos dentro do nosso ser íntimo numa sopa de pensamentos ou apenas numa explosão de sentimentos uns bons e outros piores.
Agora lembro um sonho, uma casa que podia ser um castelo, uma busca, uma fuga que podia ser apenas um jogo. Risco e perigo, tudo num sonho que podia ser apenas um filme., tal como a vida onde nos arriscamos todos os dias a vencer ou apenas a falhar. Procuro compreender esse sonho, essa necessidade de fuga desse pesadelo onde me sinto presa, perseguida por um inimigo sem rosto que posso considerar ser apenas o meu arrependimento. Falhas pequenas, mas essa fobia de sítios desconhecidos e sem saídas aparentes. Sem janelas onde apenas se vêm paredes altas de pedra maciça. Salvo-me não só a mim, mas tento salvar alguém, salvar alguém que amo, mas não consigo identificar, pareço salvar a família, pareço salvar outros. Aquilo que é comum é apenas esse sentimento de arrependimento, e com isso uma necessidade de sobrevivência. Estranho sonho este.
Começo a sentir dentro de mim uma ansiedade que não consigo controlar, é como um monstro adormecido, calmo monstro este, dorme pacifico. Mas só o facto de eu saber que ele existe e que temo que ele acorde faz fica ansiosa. O monstro vai voltar a acordar este ano.
Um ano de decisões, um ano onde tudo se irá definir, decidir. Há anos que espero por isto. Há nos que me preparo para este momento, mas sei agora que nunca estive preparada.
Sinto-me presa e o tempo parece não me ajudar a curar as feridas que voltarão a ser abertas.

O tempo que tudo cura não sarou as minhas feridas, nem lavou as minhas manchas. Agora tenho de viver com elas, até que o tempo apague a minha memória.

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