Depois desta democracia viva a ditadura

Assistimos nestes dias áquilo a que eu chamo o cúmulo da democracia. Em pleno século XXI, Portugal, um país membro da UE com uma democracia instalada onde todas as suas instituições e poderes funcionam em pleno e onde as liberdades e garantias dos cidadãos estão garantidas, os portugueses elegem como principal individualidade, como o melhor português, aquele que foi chamado o ditador. O Professor. diado por muitos, amado por muito poucos, é agora aclamado por uma larga maioria. Nem o fundador deste cantinho à beira mar plantado, que desafiou os espanhóis, foi capaz de os demover. Acho que no fundo neste momento os protugueses preferiam ser espanhóis e ficaram ressentidos por el rei D. Afonso Henriques ter decidido que queria um reino só para ele.

O professor finalmente viu todo o seu esforço reconhecido. Afinal aquilo dos 4 Fs resultou: família, fado, Fátima e futebol.
Eu por outro lado acho que existe um grito de revolta dos portugueses, senão vejamos:

- a justiça de facto não existe, porque pende sempre para o lado do mais forte e ao Zé-povinho faz um manguito;

- às greves, manifestações, protestos, audiências com o presidente e com o raio mais velho, o governo faz ouvidos moucos;

-as eleições para tentar mudar o raio do partido que lidera o governo através do livre voto fazem-nos perceber que afinal a merda é a mesma, o que muda é só o logótipo do partido;

Depois de esgotar todas as vias que a democracia dá aos cidadãos para se fazerem ouvir, os portugueses viram-se para o quarto poder, a TV e eis que se lembram de eleger como o maior português de todos os tempos, o português mais odiado do último século. Protesto! Para mim isto é a outra maneira de protestar, se isto não resultar vamos emigrar e se nem assim as coisas mudarem voltamos a chamar os militares e deitamos abaixo a democracia, elegemos a ditadura como o melhor sistema de mandar a escumalha que nos governa para a rua.

De facto no tempo do Professor é que era.

Naquele tempo éramos todos pobres, só uma minoria tinha dinheiro a rodos, e esses eram como que os escolhidos, eram famílias ricas, que já o eram, já estavam no poder e a única forma de o Zé povinho sair da merda era emigrar, enriquecer e voltar com os bolsos cheios ou remediados. Éramos todos pobres, a fome era alguma, mas ao menos não sofríamos de obesidade. Comíamos que bastasse para sobreviverem os necessários para fazer face às necessidades de mão-de-obra do país e ainda sobravam alguns para exportar, além da vantagem de ninguém querer imigrar para Portugal.

Os salários eram baixos, mas pelo menos havia emprego para todos. Não havia 7% de desempregados, nem havia direito a subsidio de desemprego para pessoas que embora tenham trabalho, ganham dois salários: o do desemprego e o do trabalho e ainda se safam aos impostos e ajudam o patrão a safar-se aos impostos também, ou que simplesmente preferem estar a receber o subsidio do que se sujeitar a qualquer emprego.
De facto no tempo do Professor não havia desertificação do interior, a terra valia dinheiro, porque era dela que tiravam os rendimentos os agricultores que tinham uma ninhada de filhos para os ajudar nas lides e para ganharem dinheiro para sustentar a família. Assim sendo a mão de obra infantil era legal e aconselhada, e o interior era constituído por uma série de aldeias onde se concentravam os pobres e analfabetos do país, onde não havia luz, nem telefones, mas onde as pessoas eram felizes.
Não havia problemas de toxicodependência, porque isso era problema de classe alta, só eles tinham dinheiro para esses luxos.
Não havia problemas de gangues e de roubos nas grandes cidades, porque no fundo não eram grandes cidades e a policia tinha todo muito bem controlado.
Não havia problemas de buracos na saúde, porque não havia saúde, só os ricos tinham direito a ela, porque podiam pagar, os outros tinham de se sujeitar à caridade alheia e a operações sem anestesia. Sortudos.
Não havia problemas de corrupção no futebol, porque todos sabíamos que ás claras o estado financiava um ou outro clube, porque era bom manter as massas entretidas.

E claro não havia problemas de falta de padres, porque ser padre era uma boa forma de um zé-povinho sair de condição de miserável. Claro que o estado apoiava a instituição era preciso manter a fé e guiar o espírito para que ninguém percebesse a miséria que aqui ia. Manter nos meninos bem comportados. E bem hipócritas como convêm.

Não havia problemas de poluição, afinal não havia dinheiro para comprar carros, nem taxas de juro aplativas ao investimento. Os bancos ganahvam quanto queriam, mas agora conseguem ainda ter taxas de rentabilidade maiores.
Naquele tempo as colónias eram ricas, sem guerra, sem fome, sem sida. Os colonos estavam bem de vida e davam trabalho aos nativos. As cidades principais eram mais desenvolvidas que as capitais de distrito da metrópole.

Tudo parecia correr sobre rodas as portugueses. Só os comunistas de quando em vez chateavam, mas para isso tínhamos a PIDE que logo tratava de aclamar os ânimos. Estava tudo controlado. Não tínhamos de nos esforçar, as nossas vidinhas corriam calmas. Sabíamos todos onde estava o poder e o dinheiro e sabíamos todos que era assim que estava destinado. Ao Zé-povinho restava a fé e o futebol. Havia pão e vinho sobre a mesa, e se não havia é porque merecíamos o castigo de Deus.

Agora as nossas vidas correm incertas. Desemprego, crimes, assaltos, a nossa vidinha de solidão, até a família descuramos. Trabalhamos para chegar ao final do mês e nada ver. O capital está na mão dos do costume. Os impostos levam uma parte do ordenado, os bancos levam a outra. É uma festa! Os filhos estão insolentes e só querem ter tudo do bom e do melhor e nós como bons pais não negamos nada. Vivemos com o que temos, com o que não temos e com o que nunca vamos ter. Os ricos cada vez mais ricos, saem impunes sem culpas dos roubos que fazem, os políticos saem impunes com as leis de favor que fazem, com os compadrios, com os desvios e o poder mantém-se nas mãos de uma meia dúzia que o tomou de assalto no tempo da outra senhora. Para manter tudo isto só entra no sistema quem cumprir as regras, quem souber falsificar diplomas, passar a perna ao parceiro e melhor cobrar e fazer cobrar favores. No fundo esta democracia não passa de uma palhaçada e os portugueses sem saberem como fazer a revolução chamam velhos fantasmas para acabar com o circo. Viva a ditadura! Abaixo a democracia que afinal não passa de uma ditadura democrática.

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