Mais um dia...
Arrasto-me...
Olho em redor e procuro escutar os sons, sentir os cheiros, respirar o ar rarefeito e fresco... olho o horizonte...perco o olhar pelos montículos de casas e pelos campos. Ao longe as serras fecham a linha.
Fresco. Um arrepio. O último raio de sol acariciou a serra e ela gemeu baixinho deixando em mim um arrepio.
O vento lançou-se de rompante pelos pinheiros e pelos cedros da velha floresta, que dançaram num corrupio.
Arrasto-me e sigo caminho...lento caminho, perco-me nas nuvens que pintadas de um perfeito rosa e violeta enfeitam o azul velho do céu, como uma velha gravura que foi perdendo a cor...
Sereno agora.
Desço a serra e sinto-a sisuda, triste, pensando em dias quentes onde plena de vida respirava alegria. Agora ficou assim, simples e rude, com suas velhas pedras despidas de vegetação, tristes como a gente, que com mãos rudes pegam no cajado e partem pelos montes guardando o gado. Não se ouvem mais as cantilenas dos pastores. O gado já não anda por ali, regressou ao quente do ninho, e os pastores ao quente do lume.
Ali, despojada da sua beleza, a serra serena espera o seu destino. Quando somos velhos esperamos assim, desesperamos, esperando um dia que não chega, um dia depois de outro que não virá.
Agora olho as últimas cores do horizonte, laranja forte, e Vénus espreita no céu brilhante qual diamante. Desperta a noite. As estrelas vêm contar novidades à lua nesta noite fria. Hoje trás o luar para confortar os corações solitários e mostrar caminhos aos amantes que se perdem pelas sombras das ruas.
Passos.
Ao longe latidos dos cães vadios que seguem um coelho no monte...
Assim vai a noite e a serra rende-se as cansaço da jornada.
Rendem-se os corpos no quente do lar.
Rende-se o crepitar do lume.
Serenamente repouso a cabeça na cadeira e deixo que me embale até também eu me render.
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