Neblina

Silêncio... Uma gota insiste numa toada pela noite...de súbito, a brisa que agitava os ramos das árvores no jardim, acalma-se e as sombras formam-se na neblina da noite. Envolvemo-nos num escuro doentio. Sentimo-nos inebriados, perdidos, desorientados e gritamos na loucura. Dentro de nós um grito de desespero. Perdemos a noção da realidade, porque descobrimos que afinal os nossos cinco sentidos de nada nos valem.
Damos tanta importância aos sentidos do corpo e tão pouca importância aos sentidos da alma. A mente, que regula e governa o corpo, essa não a sabemos usar, não conhecemos o seu poder. O nevoeiro consegue desorientar-nos numa noite escura, como nos deixamos desorientar pelo ruído do mundo nas nossas vidas. Apenas o medo impera, apenas ele governa os sentidos.

Agora mais perto, essa cacimba que nos vai consumindo os ossos... um arrepio...um sobressalto...talvez um ruído, talvez apenas o ruído do nevoeiro que me entra pelos ouvidos pelos poros, pelos olhos, que invade todo o meu corpo e o consome num festim.
Toda eu sou agora neblina, faço parte dela, extingo-me num perturbador silêncio. Extingo-me por entre as sombras da noite.
Um toque, talvez um toque de calor humano me salvasse, mas talvez seja tarde, talvez agora apenas eu seja apenas gotas de agua, gotas de agua que se fundem no nevoeiro...

Num dia comum

Não lembro o dia em que me cruzei contigo pela primeira vez. Devia ser um dia tão comum, um daqueles dias onde parece que não conseguimos ter tempo para respirar e onde não prestamos atenção a nada do que nos rodeia. Sei apenas que um leve toque bateu no meu coração, que levemente corou, sorriu, e sem perceber, envolveu-se nessa magia dos sentidos.
Quase não nos cruzamos, ou talvez nos tenhamos cruzado demasiadas vezes nos últimos tempos. Não fazemos nada para isso, a vida obriga-nos a isso, e sem querer fomos sorrindo, fomos trocando olhares, fomos corando com uma palavra, fomos ficando sem graça e alguém reparou. Conversamos sobre tantas coisas e parece ser sempre tão pouco o tempo que passamos juntos. Parece que temos sempre tanta coisa para contar para mostrar, para partilhar. Tudo é tão natural, que quando estamos os dois, parece simplesmente não existir nada mais em nosso redor, não prestamos atenção a nada que não seja apenas a nós, e tocamo-nos levemente com uma timidez quase infantil. Um toque como fogo, um desejo contido pelo medo.
Sempre que partes e te despedes dessa forma romântica de tempos idos, os olhos sorriem numa lágrima que foge. Curvo-me a este sentimento sem explicação lógica, sem razão aparente, só a emoção sobrepõe a razão porque negamos esse sentimento.

Posso sentir-me feliz assim, feliz por saber desse teu amor, feliz por saber de ti e feliz porque entre nós existe esse toque na alma, esse reconhecimento de almas que se unem, que se uniram, que se unirão numa feliz coincidência de se sentirem felizes quando perto.
Sei que as coisas não passarão de um momento feliz. Também não sei se quereria muito mais do que esse momento. Talvez o medo se sobreponha a tudo, talvez seja apenas a razão, talvez seja a impossibilidade do momento, talvez não nesta vida, num outro tempo, num outro corpo, num outro mundo… talvez um dia, num desses dias comuns o amor se revele.