Silêncio... Uma gota insiste numa toada pela noite...de súbito, a brisa que agitava os ramos das árvores no jardim, acalma-se e as sombras formam-se na neblina da noite. Envolvemo-nos num escuro doentio. Sentimo-nos inebriados, perdidos, desorientados e gritamos na loucura. Dentro de nós um grito de desespero. Perdemos a noção da realidade, porque descobrimos que afinal os nossos cinco sentidos de nada nos valem.
Damos tanta importância aos sentidos do corpo e tão pouca importância aos sentidos da alma. A mente, que regula e governa o corpo, essa não a sabemos usar, não conhecemos o seu poder. O nevoeiro consegue desorientar-nos numa noite escura, como nos deixamos desorientar pelo ruído do mundo nas nossas vidas. Apenas o medo impera, apenas ele governa os sentidos.
Agora mais perto, essa cacimba que nos vai consumindo os ossos... um arrepio...um sobressalto...talvez um ruído, talvez apenas o ruído do nevoeiro que me entra pelos ouvidos pelos poros, pelos olhos, que invade todo o meu corpo e o consome num festim.
Toda eu sou agora neblina, faço parte dela, extingo-me num perturbador silêncio. Extingo-me por entre as sombras da noite.
Um toque, talvez um toque de calor humano me salvasse, mas talvez seja tarde, talvez agora apenas eu seja apenas gotas de agua, gotas de agua que se fundem no nevoeiro...
"Aqui, deposta enfim a minha imagem,/ Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,/ No interior das coisas canto nua./ Aqui livre sou eu - eco da lua/ E dos jardins, os gestos recebidos/ E o tumulto dos gestos pressentidos,/ Aqui sou eu em tudo quanto amei." Sophia de Mello Breyner
Neblina
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