Numa pausa da politica um apontamento sobre um sonho.
No meio da neblina em que mergulhei o meu sono, vieste tu assim com esse teu sorriso malandro e, de mansinho, veio à memória um momento, apenas um segundo, um segundo da minha memória que vale ouro e que nenhum outro conseguiu ainda apagar, um segundo que me põe um sorriso sentido e indisfarçável.
Nada, nenhuma outra memória pode apagar aquele momento em que nos olhámos assim tão perto que quase podia sentir a tua respiração, tão perto que posso ainda sentir a tua mão como se ainda brincasses com meu cabelo. Posso ainda ver o teu olhar, mas as palavras que trocámos não lembro, nenhuma dessas palavras poderia exprimir o que estávamos a sentir naquele momento, era apenas conversa de ocasião, era apenas um disfarçar o que os nossos olhos não podiam negar.
Nada mais existia à nossa volta, a multidão que nos rodeava era apenas vazio e ali apenas existíamos nós, não apenas na sala, mas no mundo. Nada mais importou durante apenas o segundo em que durou a eternidade daquele momento.
Podia estar a imaginar, mas não foi sonho, não foi imaginação foi a realidade que se tornou sonho naquele momento e só nós os dois percebemos e mais nada importou.
Quando acordei desse instante entendi e de mim se apoderou o medo, para não mais procurar esse teu olhar. Hoje compreendo como era feliz, como fui feliz nesse instante, como fui infantil porque tive medo de ser feliz. Hoje pergunto porque nos separou assim a vida, porque nos deu apenas esse instante? Para apenas recordar? Para apenas ficar na memória uma história mal começada, que acabou tão prematuramente?
Este momento resumiu todos os outros que poderiam acontecer, mas que a vida nos levou e ficou como um sonho na memória, na minha memória. Hoje procurei esse momento para me levar para o sonho e por lá ficar.
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