Fugir

Ando pelo rua vagueando. Os meus movimentos são respostas a um automatismo do corpo que segue caminhos que lhe são familiares...a mente perde se em pensamentos que voam longe.
Não oiço o que as pessoas me dizem. Respondo com sons que não reconheço. Não respondo. A minha mente voa longe, para um mundo que crio numa terra distante.
Reconheço as ruas onde passo, mas não sei para onde vou. Queria apenas saber por onde ir. Queria resposta para saber apenas o que fazer. Não sei o que fazer. Perdi me nesses sonhos. Perdi-me na razão e teimo em não seguir a emoção. Temo a emoção que me levará ao sofrimento.
Já não sei o que é sentir. Não sei reconhecer os sentidos. Não sei interpretar o que sinto. Ao chamamento do corpo responde a razão. A alma mantém o silêncio e teimo em responder a tudo com a razão, mas a razão é apenas medo, medo de falhar, medo de sofrer, medo de desiludir...medo é a barreira para todas as decisões, é a razão para todo o não.
Coragem é que falta a esta vida...coragem é o que sempre pequei por não ter. Nunca tive coragem para enfrentar os meus medos, as minhas limitações, as minhas indecisões. Agora vou escolher novamente o caminho mais simples o caminho mais fácil, agora vou escolher fugir de mim.
Vou escolher o caminho que me levará para mais longe do que sempre desejei e nunca de facto ambicionei.

Delírios

Uma profunda melancolia me consumiu…
Pobres os que não ambicionam as estrelas, pobres os que não sonham, pobres os que não sentem…deles é a toda a solidão do mundo, todo o silêncio que buscam é chama que consome a sua alma.
Cada palavra pode ser uma lágrima escondida por detrás de um sorriso.
Cada lágrima é um chamamento…
Convoco os deuses para uma luz que teima em ser trevas. Convoco os deuses num concilio onde se deitam sortes à vida. Os deuses magnânimos na sua decisão atiram a alma para um limbo…
Não há deuses, não há luz, não há nada!
O silêncio embriagou a alma e as palavras enrolam-se na sua boca num desespero entre o real e alucinação.
Não há deuses, não há luz, não há nada! Nada!
Não! Talvez… talvez sim! Talvez me deixe escorregar para esse penhasco, esse que vejo à minha frente. Talvez seja apenas uma miragem, não pode haver penhasco no limbo, era fácil de mais.
São delírios no deserto onde não há oásis só dunas, dunas de areia fina que me envolvem os pensamentos em ondas de um amarelo-torrado quase laranja, um entardecer da vida que morre como o sol ao fim de um dia.