Serradura - Mário de Sá Carneiro

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.
E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No indindável sofá
Da minha Alma estofada.
Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.
Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o > de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:
Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.
Folhetim da >
Pelo nosso Júlio Dantas
 —Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual…
O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!…
Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta…
Isto assim não pode ser…
Mas como achar um remédio?
— Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:
O que era fácil — partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel
A gritar >…
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade…
Vou deixá-la— decidido —
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.

Mário de Sá-Carneiro


Nascer! Não, quero voltar para casa!


Pergunto se é possível recomeçar de novo?
Alguém me respondeu: não é recomeçar, é nascer!
Nascer de novo?
Nascer, nascer mesmo!Você não nasceu ainda! Você contraria a vida desde o momento em que nasceu! Você não queria nascer e recusa se a viver! Tem de nascer!!!
Tenho de nascer de novo? Mas como? Voltar á barriga da mãe e nascer outra vês?!

Mas se tenho 32 anos como posso nascer de novo? Como posso voltar ao zero? Como posso voltar a nascer?!

Se alguém me souber responder eu agradeço!
É porque eu não queira nascer e alguém me abrigou a nascer! Alguém me empurrou e disse: é a tua oportunidade, pronta ou não ou vais agora ou ficas! E atiraram -me para este corpo!

Quando nasci chorei que nem uma desalmada durante horas! Calei de cansaço! Durante 32 anos vive na tristeza e na sombra e agora percebi que a minha vida era apenas uma ilusão!

Esperei um milagre e não aconteceu, sempre que me tentava erguer de novo e vida me empurrava, era como se Deus me castigasse e se risse na minha cara sempre que me tentava erguer, ele empurrava-me assim dessa forma de putos que passam o tempo a bater nos mais fracos!
Foi assim que a vida passou o tempo a divertir-se comigo...empurrando o mais fraco...no fundo desde sempre que sofri bulling de Deus e dos humanos...sinto-me uma criança que foi sovada pelos seus pares e também pelos seus superiores...
Esperei um milagre e não aconteceu, existia uma réstia de esperança e até isso me foi tirado, era apenas uma ilusão, não era o oásis que via, era uma miragem, não era a luz no fundo do túnel que via era apenas um cisco no olho que me iludia!
Um judeu disse um dia que eu nunca seria ninguém na vida e acertou, o homem olhou para mim e disse: coitada, será sempre um zero á esquerda, é uma fraca! Aquilo ficou me na memória! o velho tinha razão!
Agora sentei-me na borda da estrada da vida e alguém me diz: é uma folha numa poça de lama! Passou a vida na poça! Quer sair de lá?
Não! Não pedi esta vida! Quero voltar para casa! Não! Não quero nascer, nunca quis e não quero! Quero voltar para casa!
Quanto tempo falta? Só quero voltar para casa!

Não pedi para nascer e Deus insiste no erro de me ter por cá! Brinca comigo e com os meus sentimentos! Espero sentada na borda da poça que ele me leve! A folha perdeu a verdura e agora está ressequida pelo tempo e pelo sol! Está morta por dentro, nada a fará voltar á vida! Será apenas pó que voltará á terra, apenas resiste o espírito!
Quero voltar para casa! Podes levar-me de novo para lá?

Caramulo a serra mais linda!


Caminhei até ao alto da montanha e quando lá cheguei pasmei de admiração!
Do alto via o mar que se estendia pelo horizonte e atrás de mim um vale imenso até à cordilheira central faziam perder a vista.
O topo do mundo, faria aqui uma tenda e morreria aqui entre as rochas que se erguem abruptas e conversam entre si histórias antigas...nos campos verdes entre elas as borboletas dançam, vivem, nascem e morrem saltando de flor em flor.
As rochas parecem ter vida e enfeitam-se de flores...
Posso percorrer todas as serras de Portugal e nenhuma me dá a emoção que esta dá!
Tantas serras galguei e nenhuma me deu esta sensação de poder! Procurei em todas elas sentir isto e nada nem nenhuma me deu o que me dás!
Senhora do mundo! Invencibilidade, nada nem ninguém me pode ferir e ninguém perceberá o que sinto agora, porque para perceber teriam de estar aqui no topo da montanha e olhar com olhos de amor!
Poucos são os que olham com olhos de amor e poucos são os que olhariam para estas rochas e veriam velhos conhecidos conversando entre si...poucos veriam um peneireiro planando no azul do céu procurando a presa...o gaio escondido no ramo da árvore...e a borboleta que teima em pousar no meu rosto...e a brisa do vento que me acaricia a pele graciosamente e sussurra no meu ouvido: amor!
Poucos percebem isto que digo, porque poucos sentem e vêm com o coração...
Não existe outra como tu que de teu nome antigo Alcoba e hoje Caramulo!
Não falam por ti as gentes, falas tu com o teu grito de beleza!
Não é a grandeza que te enche de glória, não são os riachos que te dão vida, é o mar que te namora ao pôr do sol, é a Estrela que te inveja, porque não pode namorar o mar, é o vale que dá te a profundidade do ser, é a neblina da manhã que dá o sonho nas nuvens...é o vento que te acaricia e te conta histórias do mundo...é a simplicidade do olhar com que vês as beiras e unes o campo e o mar!
O que te dá vida é a tua solidão que te destacou das restantes e dela fizeste a força que te torna enorme!

És única e perfeita, de ti vem a força que me faz caminhar e sempre que a tristeza queima o meu olhar, vejo no mar o sol e no vale as nuvens que me fazem sonhar!

Os loucos e os sãos


Aos loucos tudo lhes é permitido!
Os loucos podem matar e são dados como inimputáveis! Podem roubar, e são dados como possuídos de um distúrbio mental!
Os loucos podem tratar os outros como lixo e tudo lhes é perdoado, porque são pessoas mal amadas.
Aos sãos de juízo nada é permitido!
Quando um são e bom de coração perde a paciência com os loucos, diz se que é uma pessoa má!
Aos sãos nada lhes é perdoado, têm de manter a dignidade nem que sejam insultados, desprezados e enxovalhados pelos loucos!
Este mundo está virado do avesso! Mudam se as regras, mudam-se os valores por conveniências, fazem se conhecimentos por conveniências, por favores e não por amor...juntam-se interesses e não valores...
Os sãos aguentam as iras do mundo louco no silêncio dos dias e na tortura das noites...
Os loucos enfeitam-se de galas e riem do mal que causam com uma indiferença arrepiante.
Arrepia perceber que quando alguém faz sofrer o outro não sente culpa, não sente nada a não ser desprezo e indiferença...arrepia perceber a maldade nos homens. Arrepia perceber a crueldade dos homens que de facto não têm coração, têm pedras no lugar do coração e agem com uma frieza e desprovidos de sentimentos nobres...
Por mais que um coração possa ter sofrido não pode ser imune á dor do outro, não pode ser imune ao mal que causa em quem nunca lhe fez mal. A isso chama-se crueldade e maldade. Corações assim não são corações, são maldições, são pessoas desprovidas de bem, são pessoas que não sabem amar nem a si, nem aos seus!
A maldade que arrasta o mundo arrasta o bem...sociedade impura e inculta em que vivemos! Nunca pensei que a maldade nos corações do comum mortal pudesse ser tanta e tão bem disfarçada!

O mundo é dos loucos e dos negros de coração! Mas a esses lhes será dado o que eles mais têm: a tristeza que os que rirem do mal merecem...esses que se vangloriam com o mal dos outros sofrem aqui e agora o mal e a dor que tanto espalham...
O inferno é aqui e aqui se pagará o bom e mal que dermos ao próximo. Já vi isto acontecer tantas vezes e por vezes de forma tão dolorosa que excedeu as minhas piores expectativas.

Não me deixa feliz o sofrimento dos outros, mas pior fico com a dor que me causam.
A Deus peço que dê aos maus de coração amor, para mudarem o ímpeto, mas se isso não for suficiente para mudarem, então Senhor dá lhes a dor para reconhecerem o mal que aos outros causam. Amém!