A solidão da montanha deixa -nos assim
fechados em nós como as rochas se fecham em si...
A rudeza da vida deixa nos a voz torpe...
De nós ouve-se apenas o silêncio...
As gentes da montanha são mesmo assim,
fecham-se na rocha de si
e deixam sua voz falar torpe,
o seu cantar é melodia de silêncio.
Pelo carreiro pisado pelo lobo
passam vagarosos os dias.
O homem segue o seu rasto
não só, mas a seu lado um cão.
Lento vagar pisado com solenidade.
O tempo passa com pesar
e os homens os pisam como lobos
pedindo licença aos dias.
A montanha deixa em seu dorso rasto
da memória que teima silenciar o latido do cão.
Os rituais das gentes são rituais de solenidade
para enfrentar a vida sem pesar.
Nos ombros do homem,
usam-se bureis como segunda pele
qual carapaça que não deixa entrar
nem olhar, nem vento, nem frio.
nem as tentações que Deus deu ao homem.
De baixo dessa pesada pele
onde só o passar dos anos lá pode entrar,
a rudeza da vida dói mais que inverno frio!
Na serra a vida é vagar,
e as aldeias se movem com as estações.
Move-se o mundo num arrastar,
no gesto e no olhar mostram as gentes as emoções.
Dizem as lendas do vento:
O certo é nascer e morrer,
O resto a gente escreve na alma,
como a montanha que teima em escrever
nos socalcos poemas de amor sem fama.
Num triste chorar de lamento,
a doçura da cristalina água do ribeiro
moveu a dureza da pedra
contra um grão de milheiro,
O milho dançou com o vento na terra
onde um homem gastou sua vida,
esperando alcançar nesta serra,
a felicidade achada e logo depois perdida.
Homem que trouxe no rosto e nas vestes um negro,
Na mão um cajado sem medo,
para enfrentar a serra e a sorte,
no coração apenas esperança e certeza da morte.
Viviana Cruz in Poemas Canção