O toque de Midas

Os últimos raios de sol são como um toque de Midas dourando tudo onde tocam! 
A brisa trás um cheiro de palha seca e uma lembrança...
O tempo pára aqui na montanha! 
Não existe tempo, não existe pensamento, existe a brisa e o corvo que me olha da rocha.
Aqui sou apenas mais uma rocha olhando o sol que se funde com o azul do mar!
Aqui sou eu no meu silêncio! 
Cala-se a voz e fundo-me com o carvalho que resiste ao tempo!
Fundo-me com a palha que seca no lameiro!
Fundo-me com o vento norte que me leva o pensamento!
Aqui sou a montanha e o seu silêncio é a minha voz!
Aqui sou sem tempo, sem pressa, aqui sou todas as estações e tenho a idade da Terra!

Viviana Cruz in Poemas Canção

Mendiga que sou

Os passos correm lentamente os pensamentos…
Corre o passado e o presente e o futuro perto e longe!
Quero o que não quero e tenho o que me dão!
Sou pedinte e sou mendiga da solidão!
Sou pedinte e sou mendiga da vida!
Dá-me uma côdea de pão e faço dela o meu bolo de festa!
Dá-me um copo de água suja e faço dela o meu espumante e brindo à alegria!
A rosa que sou murcha um pouco! Logo que se abeira de mim a tristeza tiro-a para dançar!
Danço um tango e uma valsa! Uma vénia ao cavalheiro do salão que me atirou uma rosa!
O salão da vida se enche de personagens!
Venho e volto num rodopio e o vento me carrega em seus braços!
Mendiga no chão deitada em teus braços, minha velha e nobre solidão!
Acordo enfim de um leve sonho que me levou para um passado ou um futuro breve!
Não sei se sou a mendiga que passa ou a lenta brisa que destapa do rosto teu véu!
O véu que tapa teu rosto é apenas teu medo! Eternamente teu medo de ser feliz!

Viviana Cruz in Poemas Canção