O que me resta?

Tantas palavras, tantas imagens e nenhuma pode expressar o que sinto, ou apenas o que não sinto. Estou aqui num canto, parada num mundo onde tento encontrar um espaço meu. Nada tenho de meu.

Um sofrer em silêncio, um chorar baixinho sem lágrimas, apenas uma dor.
Vasculho a razão, o porquê de me esconder do mundo.

Vou à rua apenas porque tenho de sair para o trabalho. Se me chamam invento mil desculpas. Não quero ver ninguém, não quero estar com ninguém, não quero que me visitem, não quero visitar ninguém ou sequer falar com alguém.

No entanto, procuro ocupar o meu tempo com algo que desejo, e não desejo. Não encontro nada que realmente satisfaça o meu desejo de querer tanto nada querer.
Quero o silêncio, mas também desejo todas as músicas, as músicas que me fazem cantar. Quero pintar, mas não me entendo com os pincéis, quero escrever, mas não encontro as palavras que combinem com os pensamentos. Fogem as palavras para os versos, mas a mão para o branco da folha. Quero ver todas as imagens, mas fogem-me os olhos para o negro da noite.

Amo a solidão, mas detesto esse amor. Fico feliz no meu canto sem que ninguém me contradiga, me importune, me atrapalhe a mente, e receio por saber que ela é mais forte que eu.

Desejei tanto ser dispensável, que ao me reduzir a isso percebi que detesto ninguém pensar, precisar, chamar, ligar.

Olho o telefone e ele não toca, ninguém me chama, e perdi a vontade de chamar alguém.

Agora sei que se partisse de mansinho, ninguém lembraria o meu nome.

Finalmente consegui o que queria e odeio me por isso.

Já nem consigo fazer o esforço de estar com alguém apenas me quero ver entre estas paredes que me aprisionam a alma, o corpo, mas principalmente a mente e a vontade de criação, de mudança.

Fico feliz com as pequenas coisas que me dão prazer, com os meus livros, com as minhas séries, com as minhas canções.

Contento – me com o pouco que me restou. Contento-me com o pouco a que posso chegar. Contento-me com a minha pobreza de espírito e como com o pouco dinheiro que me restou na conta bancária. O pouco que possa alcançar deixa-me feliz nesta infelicidade.

Já odeio as palavras e os riscos que faço com o lápis. Já odeio os pensamentos, mas o que mais odeio é a não vontade. Odeio o buraco que escavei, de tão fundo que foi, de tão perfeito que foi, agora não consigo sair dele. Ë mesmo coisa minha. De tão perfeccionista que sou, escavei um buraco impossível de sair. Num uma grua me pode tirar de um sítio que temo sair.

Turva-me o olhar e julgo que perco mesmo as forças em alguns, nesta ilusão de vida.

Timor - o corcodilo no ninho de víboras

Quando ontem á noite ouvi o disparate que aconteceu em Timor fiquei revoltada. Como Portuguesa custa-me ouvir estas insanidades mentais numa democracia jovem que por infortúnio está metida num covil de víboras: australianos e indonésios, dois povos que têm de tanto de cruel como de facínoras. Uns são provenientes de criminosos ingleses outros de piratas holandeses e tribos canibais.
Desculpem-me se ofendo alguém, mas é só a minha revolta a falar. Como é possível que continuem a chacinar um povo que, por ser tão pequeno, continua sem voz para se fazer ouvir. Não me digam que é entre eles, são as diferentes facções que não se dão? Uma ova é que é! São apenas interesses económicos a falar.

Revolta-me isto. Porque será que penas quando a sua voz se junta à do povo português é que eles são ouvidos e respeitados como seres humanos, ainda que os fulanos da comunidade internacional o façam só por fachada?
Um povo que continua na miséria mesmo de pois da independência, que contínua na pobreza quando com um pouco de honestidade, de lealdade, de solidariedade poderia salvar a situação. E mais incrível é que mesmo que vá um português e tente, vem sempre algum sacana australiano que dá volta á situação. Políticos corruptos, que deixaram à muito o seus ideais pela cor do dinheiro.

Deixem esse povo em paz. Deixem o povo falar, deixem o povo da montanha viver na sua paz, na paz da montanha, essa paz perturbada apenas pela chuva da monção que embala com seu cântico as horas.

Cordeiros

Um dia no outro, que chama outro como conversas de café que se arrastam pela madrugada qual cerejas.

Assim vão os dias, as noites da humanidade, arrastando-se…arrastamos o dia... Um instante uma eternidade, um momento uma vontade, a verdade que não trás felicidade.

Criamos ideias ilusórias, ou não criamos. Só quem se define nos seus ideais encontra caminhos que lhe trazem felicidade, porque são trilhos que ele esculpiu na terra e marcou com suas suadas mãos.

O lavrador não descansa quando deita a semente na terra, começa aqui a sua canseira. Quando a semente cai na terra ele deixou de controlar o tempo. Terá de reger o seu tempo com a vontade prévia de criar vida naquele instante e, se quer ver o fruto dessa vontade, terá de lutar por ela.

Deixámos de ser lavradores, somos apenas compradores de vontades, de ideias. Vendemos a vontade por um punhado de reis no alforge.

Quão conveniente é a senhores vender suas vontades e ideias. Sorte a deles que guiam os cordeiros para as pastagens como para o matadouro. Ao cordeiro é indiferente. Confiamos nos pastores que nos guiam, em vez de sermos pastores de nossos caminhos.

Quero vontade, ideias, criação, acção, determinação no caminho que sigo e vejo ou espelho só um cordeiro.

Sermão aos peixes

Dei por mim a pensar em como me sinto isolada no meio de tudo. Isolada no meio dos colegas de trabalho, no meio do trânsito, no meio dos amigos... dou por mim a falar aos peixes como o padre...falo, mas não me ouvem. Parece que o que digo não interessa e quando vou para dizer algo sobre mim, a sua indiferença é tal que dói.
Quando alguém se acerca de mim e me pede concelhos ou simplesmente me fala do seu dia, das suas expectativas, das dificuldades, dos sonhos, tento escutar, tento, nem que tenha de disfarçar algum cansaço no rosto.
Mas quando eu falo, ninguém parece escutar. Há tanto tempo que deixei de falar de mim, que já nem lembro porque parei. Talvez porque ninguém nunca me escutou, talvez por isso tenha simplesmente parado de falar do que sinto, do que penso, dos problemas, da vida, do que fiz do que não fiz. Passei a falar só de trabalho e fechei-me.
Agora lembro que talvez tenha sido aborrecida, muito pessimista, talvez ninguém me levasse a sério.
Talvez tenha dito tantas vezes que queria morrer, que ninguém escutou quando estava mesmo em baixo. Ninguém perguntou o que mudou, porque deixei de falar sobre mim.

Nada...escuto o silêncio da casa e é o mesmo silencio dos que me rodeiam. Posso olhar em volta e ver os seus rostos distantes...ainda que dê um grito não me escutarão.
Posso elevar me acima das suas cabeças e flutuar dali para fora que não darão conta. Também não entendem porquê, porque sendo igual sou diferente.

Se não querem entender, se não se importam, isso também não me importa, serei feliz igual. E na minha mente sentir-me ei sempre acima das vossas cabeças a flutuar…