Coisas que gostamos e odiamos

Ontem fui sair com uns amigos.
Quatro pessoas, com pouco ou nada em comum, saem e têm conversas da treta...conversas que convergem apenas e só para um cansaço. Como é que pessoas que se conhecem há tantos anos não conseguem ter uma conversa interessante? Talvez falte um ou dois elos de ligação, um contexto ou então simplesmente mudamos tanto que não nos reconhecemos mais.
O meu poder de observação dita-me apenas uma justificação lógica: conheço-os a todos e sei que cada um deles, incluindo eu, estávamos a pensar em coisas tão diferentes naquele momento, que não conseguiríamos manter uma conversa lógica e de qualquer tipo de interesse...posso mesmo adivinhar, que o que fez com que estivéssemos ali naquele momento foram motivos tão egoístas que em vez de nos unir separaram. E não quero com isto ofender ninguém, porque estarei a falar de mim própria. Eu só estava ali para não estar em casa sozinha enfiada em frente da TV a ver algo pouco interessante ou então no computador a trabalhar...

Cada vez mais só consigo ter conversas interessantes com as pessoas mais improváveis, algumas delas nem as conheço.
Então e os amigos? Com eles falamos sobre o quê? Sobre nós? Sobre a vida? Sobre os problemas? À medida que nos vamos conhecendo, deixamos de falar sobre outros interesses. Conhecemo-nos e deixamos de querer saber o que cada um pensa de uma coisa e outra. Deixamos de assumir posições para não ferir susceptibilidades. Deixamos de contar coisas que nos acontecem, porque assumimos que ninguém irá compreender as nossas razões, tudo porque os conhecemos tão bem e sabemos o que vai na sua cabeça, que seleccionamos informação. Ás tantas afastamo-nos tanto que não nos reconhecemos mais naquele grupo, naquelas conversas ou naquela simples vontade de dançar.

Depois fomos dançar. Naquela hora percebi uma coisa: percebi o erro do costume.
Este é um erro que funciona como um simples mecanismo de defesa. Quando gostamos muito de uma coisa e iludimos a nossa mente com a ideia que dificilmente iremos ter essa coisa, criamos uma fantasia para a passarmos a odiar. Com as danças foi assim.
Sempre tive uma admiração pela dança. Desde pequena admirava o meu pai e a minha irmã, porque eles dançavam tão bem e eu queria ser como eles.
Formamos na nossa mente um estereótipo do qual não nos conseguimos livrar.

Sempre fui muito tímida e perfeccionista, logo se ninguém me chamava para dançar e se eu não sabia dançar assim, passei a não os acompanhar aos bailes e simplesmente coloquei na minha cabeça a ideia que não gostava de dançar.
No dia em que o rapaz de quem gostava quase me convidava para ir ao baile da aldeia com ele, tremeram-me as pernas e a resposta à pergunta que ele se limitou a fazer com o olhar foi: então não vais embora? (ou seja, vais ficar aí especado a olhar para mim enquanto todos esperam por ti, sem me convidares para dançar e eu cheia de vontade de ir contigo?) Foi uma cena inesquecível. Eu no alto dos meus 15/16 anos a fazer esta pergunta sem saber exactamente onde me esconder, e com um misto de sentimentos a florirem no meu coração, e aquele moço, mais timido que eu não teve coragem de fazer o obvio: convidar-me para dançar!? Que raiva! Raiva de mim e dele. Nunca mais o vi. Naquele momento prometemos um ao outro no nosso silêncio que a única forma era afastarmo-nos de modo a esquecer.
É assim que fazemos com aquilo que gostamos, mas sabemos ou julgamos saber, que não poderemos ter, afastamo-nos para não sofrer.
Habituei-me a viver a vida assim: fugir daquilo que não compreendo ou daquilo que me pode fazer sofrer. Ainda que eu saiba que do outro lado da montanha estará o paraíso, não irei subir a montanha, porque a floresta tem perigos que temo e que não quero enfrentar.
Com as danças as coisas foram assim. O meu sonho era saber dançar, era rodopiar levemente pelo salão como se estivesses nas nuvens. Numa altura em que me julgava determinada e em que não tinha mais nada para fazer, fui para as danças. Desde o primeiro instante que percebi que havia algumas danças que me faziam ter que enfrentar uns fantasmas, mas com alguma insistência fui continuando.
Depois de algum tempo de trabalho percebi que não conseguia apanhar a ideia. A minha mania de me comparar aos melhores não ajuda nada e comecei a desistir de tudo.
Quando olhava para o salão com aquela gente dançando, sentia uma admiração e uma tristeza profunda. Deixei de ir, e prometi a mim mesma que não voltaria a ir para não mais ter de chorar baixinho, para não mais chegar a casa com vontade de me destruir por ser tão burra e tão incapaz, tão fora daquilo que quero e que não sou. E isto representa não só as danças como também tudo o mais na minha vida.
Ontem senti uma tristeza que só o meu olhar conseguia descrever. Quase chorei, mas na minha masmorra mantive firmes as lágrimas e lidei friamente com a situação, tal como faço com tudo aquilo que amo e tenho que passar a odiar, mantive a distância e deixei a minha mente voar para um sitio que não consigo situar, para o limbo.

1 comentário:

viegas disse...

A resposta ao "Porra!" é simples: se não me conheces para saber que é isso que sinto, parece-me que tudo o que te disse, tudo o que vivemos até hoje foi em vão.
Ás vezes parece que quando falo para ti não me ouves ou entao ouves-me enviesadamente, ouves o que te parece...vês o que queres.
Sou simples e tão transparente que me parece que já devias ter percebido que é assim que sinto, e se naquelas horas em que estivemos todos juntos não percebeste isso pelo meu olhar, então não sei mais o que te diga.
Confesso que me esforcei, esforcei-me muito por manter a calma e simplesmente levar tudo na boa e acho que devo ter conseguido bem, porque nem tu percebeste.

Resumindo: acho que devo ser uma bela actriz porque nem os meus amigos me conhecem...nem eles conseguem perceber a tristeza que me vai na alma e quando me perguntas o que podes fazer para mudar isso, não sei! Diz-me tu! Eu já perdi a vontade de pocurar saber o que me faz feliz.